Vai doer?
Dá para diminuir a dor ao colocar o DIU, mas não dá para garantir que ela não aconteça. A dor existe, muda muito de uma mulher para outra e o pior momento dura poucos minutos.
Se você leu relatos assustadores e ficou com receio, esse receio é legítimo. Por muito tempo essa dor foi tratada como algo que a mulher deveria aguentar calada. Hoje as principais recomendações internacionais pedem o contrário: que o médico leve a dor a sério e converse sobre ela antes de começar.
Em que momento dói
A colocação tem três momentos rápidos. Primeiro, eu seguro o colo do útero com uma pinça delicada, e isso dá uma fisgada curta. Depois, o aplicador passa pelo canal do colo, e a sensação é de cólica apertando. Por último, o dispositivo é solto lá no fundo e o útero se contrai. Essa é a cólica mais forte, e também a que passa mais depressa.
Eu aviso antes de cada etapa, para você saber o que vem.
Quem costuma sentir mais
Mulheres que nunca tiveram filho tendem a sentir mais dor, porque o canal do colo é mais estreito. Isso não impede o DIU: só pede mais cuidado no planejamento. Adolescentes e mulheres com dor pélvica antiga, história de violência sexual ou outras dores crônicas também podem reagir de modo diferente aos remédios para dor. Se algo disso faz parte da sua história, me conte na consulta.
O que ajuda e o que não ajuda
| Recurso | Ajuda? |
|---|---|
| Gel anestésico | Foi o que se saiu melhor nos estudos, com evidência ainda fraca |
| Anestésico em solução | Ficou logo atrás do gel |
| Anestésico dentro do útero | Reduziu a dor, em estudos feitos sobretudo com quem nunca teve filho |
| Comprimido para “abrir o colo” | Não mudou a dor na maioria dos estudos e saiu da rotina |
| Combinar antes o sinal de parar | Faz parte da recomendação atual |
Analgésico comum antes de sair de casa pode ser combinado comigo. E você pode pedir para parar a qualquer momento: o procedimento para na hora.
No consultório ou no hospital
Eu coloco o DIU no consultório e também no hospital, com sedação. Pelo plano de saúde, a colocação é feita somente no hospital, com sedação.
Se o colo é muito fechado, se já houve cirurgia no colo ou se uma tentativa anterior não deu certo, eu prefiro colocar no hospital, com sedação e com uma câmera fina que mostra o caminho por dentro. Isso não significa que o DIU não serve para você, só que o seu caso pede outro ambiente.
Depois da colocação
A cólica forte some em minutos ou em poucas horas. Nos dias seguintes, cólica leve e um sangramento escuro e pouco são comuns. Nos primeiros três a seis meses, sangrar fora de hora faz parte da adaptação.
Procure atendimento sem esperar o retorno se tiver febre, dor que piora, corrimento com cheiro forte, sangramento muito volumoso ou dor na relação que não existia. Furar o útero e infecção são raros, por volta de 1 em cada 1.000 e de 1 em cada 100 mulheres ao longo de todo o uso, e são esses os problemas que pedem avaliação rápida.
Perguntas frequentes
Dói mais que o exame de toque? Sim, por pouco tempo. Parece uma cólica menstrual forte durante a colocação.
Posso fazer com sedação? Pode. Eu faço a colocação no hospital, com sedação. Pelo plano de saúde, é sempre assim.
Existe colocação sem dor nenhuma? Os estudos não mostram isso. Diminuir a dor é possível; eliminar, não.
Tirar o DIU dói? Bem menos. Eu puxo os fios e o dispositivo dobra ao sair.
Preciso de exame de sangue antes? Não. No consultório, se a gravidez estiver descartada, dá para colocar no mesmo dia da consulta. Pelo plano, a colocação é agendada no hospital.
Se quiser conversar sobre o seu medo da dor antes de decidir, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
O que eu respondo quando me perguntam se vai doer
Para diminuir a dor ao colocar o DIU, o primeiro passo é parar de fingir que ela não existe. No consultório, quando uma mulher me pergunta se vai doer, eu respondo que sim, que a intensidade muda muito de pessoa para pessoa, que o pico dura poucos minutos e que existem recursos com estudo a favor para reduzir esse pico. Não consigo prometer colocação sem dor nenhuma, e desconfio de quem promete.
Muitas mulheres chegam com relatos fortes lidos em redes sociais e algumas já desistiram do método antes de conversar com alguém. Esse receio tem fundamento. Durante muitos anos a dor da colocação foi descrita nos documentos oficiais como um desconforto passageiro, e a conduta mais comum era pedir que a paciente aguentasse. Isso mudou nos últimos dois anos, com data e autoria conhecidas, e é essa mudança que orienta a forma como eu conduzo o procedimento.
De onde vem cada fisgada durante a colocação
Quando eu explico o passo a passo antes de começar, a ansiedade costuma cair, porque a dor deixa de ser um bloco único e vira três momentos curtos e previsíveis.
O primeiro acontece quando seguro o colo do útero com uma pinça delicada. Essa pega serve para alinhar o canal e provoca uma fisgada rápida, bem localizada. O segundo é a passagem do aplicador pelo canal cervical, que tem inervação própria e costuma ser mais estreito em quem nunca teve parto vaginal. A sensação é de cólica apertando. O terceiro é a chegada ao fundo do útero e a liberação do dispositivo. O útero responde com uma contração, que é a cólica mais intensa de todo o procedimento e, ao mesmo tempo, a mais breve.
Saber em qual desses momentos você está ajuda a atravessar cada um. Eu aviso antes de cada etapa, e você sabe o que vem a seguir.
Quem tende a sentir mais?
Há fatores objetivos, medidos, que aumentam a chance de a colocação ser mais desconfortável. A revisão sistemática de Foran e colaboradores, de 2018, mostrou que mulheres que nunca tiveram filho têm mais dificuldade de inserção, mais falha de inserção e mais dor durante a colocação. A mesma revisão não encontrou diferença de infecção nem de expulsão entre esses grupos, o que significa que o obstáculo é técnico e não uma contraindicação.
O consenso do American College of Obstetricians and Gynecologists, de 2025, acrescenta outros grupos que podem ter tolerância e resposta aos analgésicos diferentes: adolescentes e mulheres com história de dor pélvica crônica, de violência sexual ou de outras condições dolorosas. Quando algum desses pontos aparece na sua história, eu planejo a colocação de outra forma, e não espero o dia do procedimento para descobrir.
O que mudou nas recomendações em 2024 e 2025
Em agosto de 2024, os Centers for Disease Control and Prevention publicaram a revisão das U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use (Curtis et al., MMWR Recomm Rep). Entre as atualizações que o próprio documento destaca, a primeira é justamente a que trata de medicação para a colocação do DIU.
Em maio de 2025, o American College of Obstetricians and Gynecologists publicou o Clinical Consensus nº 9, sobre controle da dor em procedimentos uterinos e cervicais feitos no consultório. O documento afirma, sem rodeios, três coisas: a dor relatada pela paciente não pode ser minimizada pelo profissional, falta pesquisa e é urgente entender melhor como controlá-la, e o viés e o racismo estrutural pesam no modo como essa dor é percebida e tratada. A decisão compartilhada vira o eixo do cuidado: cada mulher responde de um jeito a cada recurso, e um resultado obtido em um tipo de procedimento não se aplica automaticamente a outro.
No Brasil não existe documento dedicado ao controle da dor na colocação do DIU. O que a FEBRASGO mantém sobre o método são as diretrizes de contracepção reversível de longa duração assinadas por Machado e colaboradores em 2017, segundo as quais cabe ao ginecologista ajustar a técnica de colocação e tornar o método mais acessível. Eu leio isso como responsabilidade de quem coloca, e é assim que trabalho.
Quais recursos têm evidência para diminuir a dor?
A colocação em si leva poucos minutos, e a diferença na experiência está na preparação e no que é feito durante o procedimento. Reuni na tabela o que as revisões recentes mostraram, junto com as limitações que os próprios autores declaram.
| Recurso | Resultado nos estudos | Fonte |
|---|---|---|
| Gel de lidocaína 4%, 5 mL | Liderou o ranqueamento de 71 ensaios randomizados (10.870 mulheres). Essa posição sai de uma comparação em rede; quando testado em ensaio isolado, o gel não mostrou diferença, e os autores consideram a evidência de baixa qualidade | Ashour et al., 2025 |
| Lidocaína em solução 1%, 10 mL | Segundo lugar no mesmo ranqueamento | Ashour et al., 2025 |
| Anestésico dentro da cavidade uterina | Menos dor durante a colocação em 6 ensaios com 651 mulheres, 68% delas sem filhos. A comparação foi com soro, então o efeito da própria infusão de líquido não está esclarecido | De Azevedo et al., 2026 |
| Misoprostol antes da colocação | Sem diferença na falha de inserção em 6 de 6 ensaios, sem diferença na dor em 7 de 9 e sem diferença na expulsão. Saiu da rotina | Matthews et al., 2016; US SPR 2024 |
| Conversa prévia e sinal combinado para parar | Recomendação formal de decisão compartilhada sobre o controle da dor | ACOG Clinical Consensus nº 9, 2025 |
O bloqueio anestésico ao redor do colo aparece mais em ensaios isolados com resultado positivo do que nas comparações em rede. Por isso eu não trato nenhum recurso como solução universal: escolho com você, a partir do que você já viveu em exames anteriores.
E o remédio para “abrir o colo”?
Muitas mulheres perguntam pelo comprimido que amoleceria o colo antes da colocação. Esse remédio é o misoprostol, e durante anos ele foi prescrito com essa intenção. A revisão sistemática de Matthews e colaboradores, de 2016, reuniu os ensaios randomizados: em seis de seis não houve diferença na falha de inserção, em sete de nove não houve diferença na dor, e a expulsão também não mudou. A revisão americana de 2024 deixou de recomendá-lo como rotina.
Analgésico comum antes de sair de casa pode ser combinado na consulta. O esquema exato depende de você e de quem vai fazer o procedimento.
O que eu combino com você antes de subir na mesa
A conversa sobre dor vem antes, sempre, e não fica reservada a quem tem coragem de pedir. Eu pergunto o que você sentiu em exames ginecológicos anteriores, se já houve desmaio ou dor muito intensa, se existe dor pélvica de longa data e se há cirurgia prévia no colo, incluindo conização ou cauterização. Também combinamos o sinal para parar. Você pode interromper a qualquer momento, e o procedimento para ali.
A lista de exames antes da colocação encolheu. Hemograma, citologia oncótica e sorologias deixaram de ser pré-requisito, e, uma vez afastada com razoável segurança a gravidez, colocar no mesmo dia da consulta virou a regra (US SPR 2024; WHO SPR, 4ª edição, 2025). Isso vale para a colocação no consultório; pelo plano, ela é agendada no hospital.
Consultório ou hospital: onde eu faço a colocação
Eu coloco o DIU no consultório e também no hospital, com sedação. No consultório, contamos com os anestésicos locais da tabela acima. No hospital, a colocação é feita com sedação e, quando o caso pede, sob visão direta pela histeroscopia. Quando a colocação é pelo plano de saúde, ela é feita somente no hospital, com sedação.
O hospital também é o caminho que eu indico quando a avaliação mostra colo muito fechado, cirurgia prévia no colo, útero em posição difícil ou uma tentativa anterior que não deu certo. Isso não quer dizer que o DIU não serve para você: quer dizer que o seu caso pede outro cenário. Como esse pedido funciona no convênio está em relatório médico para colocar DIU.
O que sentir nas horas e nos meses seguintes
Em geral, a cólica intensa passa entre alguns minutos e poucas horas. Nos dias seguintes, é comum ter cólica leve e sangramento em borra. Nos três a seis meses depois da colocação, sangramento irregular faz parte da adaptação nos dois tipos de dispositivo, comparados em diferença entre DIU de cobre e hormonal. No hormonal, a redução do fluxo até a ausência de menstruação é esperada, e explico o mecanismo em sem menstruar com DIU hormonal.
Não espere o retorno se aparecer febre, dor na pelve que aumenta em vez de diminuir, corrimento com mau cheiro, sangramento muito intenso ou dor na relação que você não tinha. Nas 1.751 participantes do maior seguimento já publicado do sistema de levonorgestrel de 52 mg, houve perfuração uterina em 0,1% e infecção pélvica em 0,9%, somando todo o período de uso (Creinin et al., 2022). São eventos infrequentes, e são os que pedem avaliação rápida.
A inserção do DIU consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura pelos planos de saúde. A autorização depende de cada contrato, e pelo plano eu faço a colocação somente no hospital, com sedação.
Perguntas frequentes
Dói mais do que o exame de toque? Costuma doer mais, por um tempo curto. O toque não atravessa o canal do colo, e a colocação atravessa. A comparação que mais ouço é com uma cólica menstrual forte que dura o tempo do procedimento.
Dá para colocar com sedação? Dá. Eu faço a colocação no hospital, com sedação, e é esse o caminho que indico quando há colo muito fechado, cirurgia prévia no colo, útero difícil ou tentativa anterior sem sucesso. Pelo plano de saúde, a colocação é sempre no hospital, com sedação. No consultório, os recursos são os anestésicos locais.
O gel anestésico resolve? Ele ficou em primeiro lugar no ranqueamento de 71 ensaios, com evidência de baixa qualidade segundo os próprios autores (Ashour et al., 2025). Reduzir a dor é um objetivo realista; zerá-la, não.
Retirar o DIU dói como colocar? Em geral incomoda bem menos. Na retirada eu puxo os fios e o dispositivo dobra ao sair, sem aplicador passando pelo canal. Se os fios não forem encontrados, a retirada passa a precisar de visão direta.
Posso ter relação logo depois? A orientação depende do momento do ciclo, do tipo de dispositivo e do seu conforto. Eu combino isso com você na própria consulta da colocação.
Se quiser conversar sobre o seu caso e planejar a colocação com calma, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.
Referências
- Curtis KM, Nguyen AT, Tepper NK, et al. U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(3):1-77. DOI 10.15585/mmwr.rr7303a1 · PMID 39106301
- American College of Obstetricians and Gynecologists’ Committee on Clinical Consensus-Gynecology. Pain Management for In-Office Uterine and Cervical Procedures: ACOG Clinical Consensus No. 9. Obstet Gynecol. 2025;146(1):161-177. DOI 10.1097/AOG.0000000000005911 · PMID 40373312
- Ashour A, H Saad A, Elzahaby I. Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials Comparing Safety and Efficacy of Pharmacological Treatments in Reducing Pain During Intrauterine Device Insertion. Sultan Qaboos Univ Med J. 2025;25(1):813-838. DOI 10.18295/2075-0528.2900 · PMID 41127231
- De Azevedo RF, Silva IA, Dominguez ACM, Molisani JT, Rodrigues ES, da Silva PHCM. Effectiveness of intrauterine anesthesia on pain management during IUD insertion: A meta-analysis of randomized controlled trials. Contraception. 2026;161:111463. DOI 10.1016/j.contraception.2026.111463 · PMID 42019756
- Matthews LR, O’Dwyer L, O’Neill E. Intrauterine Device Insertion Failure After Misoprostol Administration: A Systematic Review. Obstet Gynecol. 2016;128(5):1084-1091. DOI 10.1097/AOG.0000000000001696 · PMID 27741184
- Foran T, Butcher BE, Kovacs G, Bateson D, O’Connor V. Safety of insertion of the copper IUD and LNG-IUS in nulliparous women: a systematic review. Eur J Contracept Reprod Health Care. 2018;23(5):379-386. DOI 10.1080/13625187.2018.1526898 · PMID 30382754
- World Health Organization. Selected practice recommendations for contraceptive use. 4th ed. Geneva: World Health Organization; 2025. PMID 41325507
- Creinin MD, Schreiber CA, Turok DK, Cwiak C, Chen BA, Olariu AI. Levonorgestrel 52 mg intrauterine system efficacy and safety through 8 years of use. Am J Obstet Gynecol. 2022;227(6):871.e1-871.e7. DOI 10.1016/j.ajog.2022.05.022 · PMID 35569516
- Machado RB, Monteiro IMU, Magalhães J, Guazzelli CAF, Brito MB, Finotti MF, et al. Long-Acting Reversible Contraception. Diretrizes e Recomendações FEBRASGO. Rev Bras Ginecol Obstet. 2017;39(6):294-308. DOI 10.1055/s-0037-1603647 · PMID 28672413

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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