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Ristow Ginecologia e Obstetrícia · Dr. José Ricardo Ristow
DIU

Fiquei sem menstruar com o DIU hormonal: para onde vai o sangue?

Parar de menstruar com o DIU hormonal é normal e o sangue não fica preso no útero. Explico por que acontece e quando vale me procurar antes do retorno.

Dr. José Ricardo W. Ristow

Escrito e revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593

Publicado em
Revisado em · 13 min de leitura

É normal ficar sem menstruar?

É normal. Ficar sem menstruar com o DIU hormonal é um efeito esperado, e o sangue não fica acumulado dentro de você. A menstruação some porque a camada de dentro do útero, que descamaria todo mês, quase não se forma. Se não se formou, não tem o que sair.

Sei que isso assusta. Muita mulher cresceu ouvindo que menstruar é sinal de saúde, e de repente o corpo para de dar esse sinal. Por isso gosto de explicar o que está acontecendo lá dentro antes de qualquer coisa.

Por que acontece

O DIU hormonal solta uma quantidade pequena de hormônio direto dentro do útero. Esse hormônio deixa a camada interna fina e quieta. Resultado: menstruação bem mais fraca e, em parte das mulheres, nenhuma menstruação.

O DIU de cobre faz o contrário. Ele não tem hormônio e costuma deixar a menstruação mais volumosa e mais longa. Com o DIU de cobre, a menstruação não para.

Quando isso começa

Não é de uma hora para outra. Nos primeiros meses, o mais comum são escapes, aquele sangue fora de hora. Depois o volume vai caindo.

Tempo de uso Quantas ficam sem menstruar
3 meses Quase nenhuma
6 meses Cerca de 1 em cada 10
1 ano Cerca de 1 em cada 6
7 a 8 anos Cerca de 4 em cada 10

Um detalhe ajuda a prever: quem menstrua menos de uma semana tem mais chance de parar de menstruar do que quem menstrua uma semana ou mais.

E um dado que acalma muita gente: num estudo grande, nenhuma mulher tirou o DIU no primeiro ano por ter ficado sem menstruar. Quem tirou, tirou pelos escapes, e mesmo isso foi pouco comum, menos de 2 em cada 100.

Quando parar de menstruar é o objetivo

Para algumas mulheres, parar de menstruar é justamente o que se procura. É o caso de quem tem menstruação muito forte, que vaza, atrapalha a rotina e às vezes causa falta de ferro. Nesses casos, a melhora costuma ser rápida: de cada 4 mulheres com fluxo intenso, 3 já não tinham mais fluxo intenso depois do primeiro mês.

Existe outra opção para fluxo intenso, um procedimento que desfaz a camada interna do útero com energia, chamado ablação. Eu apresento as duas na consulta, com o que cada uma oferece a longo prazo.

O padrão pode mudar

Pode. Mesmo quem parou de menstruar pode voltar a ter algum sangramento com o tempo, ou ao trocar de dispositivo. Isso, sozinho, não quer dizer que o DIU precisa ser trocado antes da hora.

Quando me procurar antes do retorno

Ficar sem menstruar, sozinho, não pede exame. Procure avaliação se vier junto com dor na barriga que piora, corrimento com cheiro forte, febre, enjoo que não passa ou mama dolorida de um jeito novo.

Tem um cuidado a mais para quem parou de menstruar: o atraso deixa de funcionar como aviso. O DIU raramente falha, mas, quando falha, a gravidez pode se instalar fora do útero, na trompa, e isso é urgência. Dor forte no pé da barriga que começa de repente, em geral de um lado, às vezes com tontura, desmaio ou um sangramento diferente do seu, pede pronto-socorro no mesmo dia. Conte lá que você usa DIU.

E se os escapes dos primeiros meses estão te incomodando, me conte antes de desistir. Na maioria das vezes eles são a fase inicial do mesmo processo que depois diminui o fluxo.

Perguntas frequentes

O sangue fica preso? Não. A camada que viraria menstruação quase não se formou.

Como sei que não estou grávida? Um teste de gravidez responde a qualquer momento, e o DIU pode ficar no lugar enquanto isso.

Vou entrar na menopausa antes? Não. A menopausa é dos ovários. O DIU age só no útero, e o ciclo volta quando ele sai.

Meu fluxo era muito forte. Vai melhorar rápido? Na maioria das mulheres, sim, já no primeiro mês.

Quando eu tirar o DIU, a menstruação volta? Costuma voltar ao que era antes. O tempo varia de uma mulher para outra.

Se quiser conversar sobre o que está acontecendo com a sua menstruação, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Quer o detalhe? O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes.
Versão completa

Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.

O sangue não fica guardado lá dentro

Ficar sem menstruar com o DIU hormonal é normal e esperado, e o sangue não fica acumulado em lugar nenhum. A menstruação some porque a camada interna do útero, que descamaria todo mês, não chega a se formar. Sem tecido formado, não há o que descamar.

No consultório, essa é quase sempre a primeira pergunta de quem para de menstruar depois da colocação, e ela costuma vir com um medo bem concreto: o de que algo esteja preso e possa fazer mal. Eu entendo o susto. Menstruar todo mês é, para muitas mulheres, a prova de que o corpo está funcionando. Por isso vale explicar o que acontece no útero antes de falar em números.

O que o levonorgestrel faz com o endométrio

O DIU hormonal libera levonorgestrel, um progestágeno, em dose pequena e diretamente dentro da cavidade uterina. O alvo principal é o endométrio, a camada que cresce ao longo do ciclo e descama na menstruação. Sob a ação contínua e local do hormônio, esse tecido fica fino e pouco reativo. Daí vêm os dois efeitos que as usuárias percebem: fluxo bem menor e, em parte delas, ausência completa de sangramento.

O DIU de cobre faz o caminho contrário sobre o mesmo endométrio. O metal provoca uma reação local que faz a perda menstrual crescer: no estudo de Milsom e colaboradores (1995), o aumento foi de cerca de 55% ao fim de doze meses, e a menstruação passou a durar em média 6,1 dias, contra 4,8 antes. Nenhum DIU de cobre leva à ausência de menstruação. A comparação completa entre os dois está em diferença entre DIU de cobre e hormonal.

Em quantas mulheres isso acontece, e quando?

Não é imediato, e a proporção cresce com o tempo. Darney e colaboradores (2018) seguiram, com diário de sangramento, 1.714 mulheres que colocaram o sistema de levonorgestrel de 52 mg. Considerando quem nunca tinha usado esse dispositivo e olhando sempre os 90 dias anteriores, estavam sem menstruar 0,2% aos 3 meses, 9,1% aos 6, 17,2% aos 9 e 16,9% aos 12 meses. Quando o mesmo grupo foi acompanhado por mais tempo, essa proporção alcançou 39% nos anos 7 e 8 de uso (Creinin et al., 2022).

Momento após a colocação O que costuma acontecer Dado publicado
Meses 1 a 3 Escapes e sangramento irregular, às vezes em dias soltos 0,2% sem menstruar aos 3 meses (Darney et al., 2018)
Meses 4 a 6 O padrão começa a se organizar e o volume cai 9,1% aos 6 meses (Darney et al., 2018)
Meses 7 a 12 Padrão mais estável, escapes raros 17,2% aos 9 meses e 16,9% aos 12 (Darney et al., 2018)
Anos seguintes A proporção sem menstruação continua subindo 39% nos anos 7 e 8 (Creinin et al., 2022)
Retirada por sangramento Motivo mais comum de retirada precoce, ainda assim pouco frequente 1,7% no primeiro ano (Darney et al., 2018) e 2,6% em 8 anos (Creinin et al., 2022)

O dado que eu mais gosto de mostrar está no estudo de 2018: no primeiro ano, 29 das 1.714 mulheres retiraram o dispositivo por sangramento irregular, e nenhuma retirou por ausência de menstruação.

Dá para prever se vai acontecer com você?

Em parte. Darney e colaboradores testaram vários fatores, e só um antecipou quem estaria sem menstruar aos 12 meses: quantos dias durava o fluxo antes da colocação. Ficaram sem menstruar 18,2% das mulheres cujo fluxo durava menos de 7 dias e 5,2% das que menstruavam por 7 dias ou mais. Já idade, número de partos, índice de massa corporal, intensidade do fluxo anterior e uso prévio de método hormonal não fizeram diferença.

Na consulta, por isso, eu pergunto quantos dias dura a sua menstruação hoje. É a informação que mais ajuda a calibrar a expectativa.

Quando parar de menstruar é exatamente o que se quer

Para parte das mulheres, a ausência de menstruação não é efeito colateral: é o motivo de colocar o dispositivo. É o caso do sangramento menstrual aumentado, aquele que encharca o absorvente, atrapalha o trabalho e às vezes já levou embora o estoque de ferro. Para essa indicação, os estudos com sistemas intrauterinos liberadores de progestágeno foram reunidos na revisão Cochrane de Bofill Rodriguez e colaboradores (2020).

A resposta costuma ser rápida. Chen e colaboradores (2020) acompanharam 1.513 mulheres, das quais 150 relatavam fluxo intenso antes de colocar o dispositivo. Terminado o primeiro ciclo, 112 delas já não se queixavam de fluxo intenso; terminado o segundo, eram 124 de 148. Nos ciclos 13 e 26, o sangramento era descrito como ausente ou apenas em borra por 51,2% e 64,1%, respectivamente.

Quando o objetivo é tratar sangramento intenso, o DIU hormonal divide a mesa com a ablação endometrial, e eu apresento as duas. Um ensaio randomizado feito na Holanda acompanhou as pacientes por 7,4 anos em média: precisaram de algum novo tratamento 40,0% das que receberam o sistema de 52 mg e 28,7% das que fizeram ablação, diferença sem significância estatística. Novo tratamento cirúrgico foi mais comum entre as usuárias do dispositivo (35,3% contra 19,1%), e a histerectomia ocorreu em proporção parecida nos dois grupos, 11,8% e 18,1% (Huijs et al., 2024).

O padrão pode mudar com o tempo?

Pode, e isso também é esperado. Em Campinas, Wittmann e colaboradores (Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2020) analisaram os prontuários de 301 mulheres que colocaram um segundo dispositivo de 52 mg logo depois do primeiro. Das 221 que já tinham mais de sete meses com o segundo, 40% seguiam sem menstruar ou com sangramento infrequente, 30% tinham passado a um fluxo leve e 30% continuavam ou ficaram com fluxo mais volumoso. Para os autores, uma mudança no sangramento, por si só, não justifica trocar o dispositivo antes do prazo.

Quando eu peço para você voltar antes

Não existe recuperação a cumprir depois da colocação, além das primeiras horas de cólica. O que existe é adaptação, e o erro mais comum é ler os escapes dos primeiros meses como falha do método. Eles são a fase inicial do mesmo processo que reduz o fluxo. Se incomodam, vale conversar comigo antes de desistir.

Vale procurar avaliação quando, além de não menstruar, aparecem sinais que essa situação não explica: dor pélvica que vai piorando, corrimento com cheiro, febre, enjoo que não passa ou dor nas mamas diferente do habitual. A ausência de menstruação sozinha não é motivo de exame e não significa gravidez, menopausa antecipada nem sangue acumulado. Se a colocação ainda está por vir e a dor preocupa, escrevi sobre isso em dor ao colocar DIU.

A colocação do DIU está no rol de procedimentos da ANS e, com indicação médica, em geral tem cobertura do plano, conforme as regras de cada contrato. Eu coloco o DIU no consultório e também no hospital, com sedação; pelo plano, a colocação é feita somente no hospital, com sedação. Quando a indicação é sangramento aumentado, explico o que o pedido precisa conter em relatório médico para colocar DIU.

O que ajuda a sua consulta a render

Quando a queixa é o sangramento, a informação mais valiosa é a que só você tem: como ele se comporta no dia a dia. Por isso eu peço que você traga, sempre que possível:

  • anotação dos últimos três a seis meses de sangramento, em dias e intensidade;
  • ultrassom transvaginal recente;
  • hemograma e ferritina, se já tiver;
  • a data da colocação, se o dispositivo já estiver no lugar;
  • os métodos hormonais que você já usou e como o seu corpo respondeu a cada um;
  • a lista de medicamentos em uso.

Com isso em mãos, as perguntas que valem a pena fazer ficam mais objetivas. Pelo meu padrão de fluxo atual, qual é a chance de eu parar de menstruar? Quanto tempo devo esperar antes de concluir que não me adaptei? O sangramento que tenho agora é a adaptação esperada ou sinal de outra coisa? Ficar sem menstruar exige algum exame de controle? Se o objetivo é tratar fluxo intenso, quais são as outras opções e como elas se comparam? Depois da retirada, a minha menstruação volta a ser como antes?

Nenhuma dessas perguntas é exagero. Elas são o que separa a adaptação esperada de um sangramento que pede investigação.

Perguntas frequentes

Ficar sem menstruar faz mal? Não há retenção de sangue, porque a camada que descamaria não se formou. No estudo de 1.714 mulheres, nenhuma retirou o dispositivo no primeiro ano por ausência de menstruação.

Sem menstruar, como sei que não estou grávida? Um teste de gravidez responde a qualquer momento, e o dispositivo pode continuar no lugar enquanto isso. A falta de menstruação vem do endométrio fino, não de gestação.

Isso antecipa a menopausa? Não. A menopausa é o fim da função dos ovários. O efeito do DIU é local, no endométrio, e o padrão anterior volta depois da retirada.

Meu fluxo era intenso. Quanto tempo até melhorar? Costuma ser rápido: 112 de 150 mulheres com fluxo intenso já não o relatavam ao fim do primeiro ciclo (Chen et al., 2020).

Se eu tirar o DIU, a menstruação volta? O padrão anterior costuma retornar, porque o efeito depende da presença do dispositivo. O prazo varia de mulher para mulher.

Se quiser conversar sobre o seu padrão de sangramento, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Referências

  1. Darney PD, Stuart GS, Thomas MA, Cwiak C, Olariu A, Creinin MD. Amenorrhea rates and predictors during 1 year of levonorgestrel 52 mg intrauterine system use. Contraception. 2018;97(3):210-214. DOI 10.1016/j.contraception.2017.10.005 · PMID 29038072
  2. Creinin MD, Schreiber CA, Turok DK, Cwiak C, Chen BA, Olariu AI. Levonorgestrel 52 mg intrauterine system efficacy and safety through 8 years of use. Am J Obstet Gynecol. 2022;227(6):871.e1-871.e7. DOI 10.1016/j.ajog.2022.05.022 · PMID 35569516
  3. Chen BA, Eisenberg DL, Schreiber CA, Turok DK, Olariu AI, Creinin MD. Bleeding changes after levonorgestrel 52-mg intrauterine system insertion for contraception in women with self-reported heavy menstrual bleeding. Am J Obstet Gynecol. 2020;222(4S):S888.e1-S888.e6. DOI 10.1016/j.ajog.2019.11.1288 · PMID 31866516
  4. Bofill Rodriguez M, Lethaby A, Jordan V. Progestogen-releasing intrauterine systems for heavy menstrual bleeding. Cochrane Database Syst Rev. 2020;6(6):CD002126. DOI 10.1002/14651858.CD002126.pub4 · PMID 32529637
  5. Huijs DPC, Derickx AJM, Beelen P, Leemans JC, van Kuijk SMJ, Bongers MY, Geomini PMAJ. A 52-mg levonorgestrel-releasing intrauterine system vs bipolar radiofrequency nonresectoscopic endometrial ablation in women with heavy menstrual bleeding: long-term follow-up of a multicenter randomized controlled trial. Am J Obstet Gynecol. 2024;230(5):542.e1-542.e10. DOI 10.1016/j.ajog.2024.01.016 · PMID 38280433
  6. Jensen JT, Lukkari-Lax E, Schulze A, Wahdan Y, Serrani M, Kroll R. Contraceptive efficacy and safety of the 52-mg levonorgestrel intrauterine system for up to 8 years: findings from the Mirena Extension Trial. Am J Obstet Gynecol. 2022;227(6):873.e1-873.e12. DOI 10.1016/j.ajog.2022.09.007 · PMID 36096186
  7. Milsom I, Andersson K, Jonasson K, Lindstedt G, Rybo G. The influence of the Gyne-T 380S IUD on menstrual blood loss and iron status. Contraception. 1995;52(3):175-179. DOI 10.1016/0010-7824(95)00163-5 · PMID 7587189
  8. World Health Organization. Selected practice recommendations for contraceptive use. 4th ed. Geneva: World Health Organization; 2025. PMID 41325507
  9. Wittmann BZ, Monteiro I, Juliato CRT, Fernandes A. Consecutive Use of the 52 mg Levonorgestrel-releasing Intrauterine System: Variations in Bleeding Patterns. Rev Bras Ginecol Obstet. 2020;42(4):194-199. DOI 10.1055/s-0040-1708092 · PMID 32330961
Dr. José Ricardo W. Ristow, ginecologista

Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico

Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.

Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.

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