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Ristow Ginecologia e Obstetrícia · Dr. José Ricardo Ristow
DIU

DIU para quem nunca engravidou: meu útero é pequeno demais?

Quem nunca engravidou pode usar DIU. Explico por que o útero não é pequeno demais, o que muda na colocação e o que acontece com a fertilidade.

Dr. José Ricardo W. Ristow

Escrito e revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593

Publicado em
Revisado em · 13 min de leitura

Posso usar DIU sem nunca ter engravidado?

Pode. DIU para quem nunca engravidou é tão indicado quanto para quem já teve filho, tanto o de cobre quanto o hormonal. Ter ou não ter filhos não está entre os motivos que impedem o método.

Se alguém já te disse o contrário, entendo a confusão. Essa ideia circula há décadas, às vezes até dentro de consultórios. Os estudos que olharam para isso com cuidado chegaram a outra conclusão, e é ela que eu sigo.

Os três medos, um por um

“Vou pegar infecção e ficar infértil.” Os estudos não encontraram mais infecção em quem nunca teve filho. Num acompanhamento de oito anos com mais de mil e setecentas mulheres, a maioria sem filhos, a infecção apareceu em menos de 1 em cada 100 ao longo de todo o uso.

“Meu útero é pequeno e o DIU vai sair.” A chance de o DIU sair sozinho também foi igual nos dois grupos. No mesmo acompanhamento, isso aconteceu com cerca de 4 em cada 100 mulheres.

“Depois não vou conseguir engravidar.” A fertilidade depois da retirada foi igual à das mulheres em geral. O DIU funciona enquanto está dentro do útero e para de funcionar quando sai.

O que muda de verdade

O que foi medido Em quem nunca teve filho
Infecção Igual
DIU sair sozinho Igual
Engravidar depois de tirar Igual
Dor na colocação Maior
Dificuldade para colocar Maior

A diferença está na hora de colocar. O canal do colo de quem nunca teve parto normal costuma ser mais estreito, então a colocação tende a doer mais e, às vezes, não avança na primeira tentativa. Isso é técnico, não proibição.

Um estudo brasileiro comparou mulheres com e sem filhos que já usavam DIU e não viu diferença em satisfação, efeitos colaterais nem em quanto tempo elas continuaram com o método. Depois de colocado, a experiência é parecida.

Como eu preparo a colocação

Antes do dia, eu pergunto se exames ginecológicos já doeram muito, se houve cirurgia no colo e se você tem planos de engravidar e quando. O ultrassom mostra o formato do seu útero e responde, no seu caso, a dúvida sobre o tamanho. Exame de sangue não é exigido.

Combinamos juntos o que vai ser usado para diminuir a dor, como o gel anestésico ou o anestésico dentro do útero, e o sinal para parar. O comprimido para “abrir o colo” não ajudou nos estudos e saiu da rotina.

Eu coloco o DIU no consultório e também no hospital, com sedação. Pelo plano de saúde, a colocação é feita somente no hospital, com sedação. Se a colocação não andar no consultório, eu programo no hospital, com sedação e uma câmera fina que mostra o caminho.

Depois de colocar

A cólica forte passa em minutos ou poucas horas. Nos primeiros três a seis meses, a menstruação pode ficar irregular até se acomodar. Procure atendimento antes do retorno se tiver febre, dor que piora, corrimento com cheiro forte ou sangramento muito volumoso.

Perguntas frequentes

Adolescente pode colocar? Pode, se não houver problema de saúde que impeça. A idade sozinha não decide. Como a dor pode ser sentida de outro jeito, planejo com mais cuidado.

Vai doer mais em mim? Tende a doer mais. Por isso o alívio da dor é combinado antes, não improvisado.

Como sei se o DIU saiu do lugar? Cólica diferente da habitual que não passa, sangramento fora do seu padrão, dor na relação que não existia ou fios que mudaram de tamanho ou sumiram. O ultrassom tira a dúvida.

Preciso de algum exame antes? Exame de sangue não. A consulta e o ultrassom orientam o resto.

E quando eu quiser engravidar? É só retirar. O efeito acaba junto com a saída do dispositivo.

Se quiser tirar as suas dúvidas antes de decidir, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Quer o detalhe? O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes.
Versão completa

Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.

A pergunta que eu mais ouço sobre DIU e filhos

DIU para quem nunca engravidou é indicado da mesma forma que para quem já teve filho: o histórico obstétrico não entra na lista de contraindicações, nem para o DIU de cobre nem para o hormonal. No consultório, a dúvida costuma chegar em outra forma, “meu útero não é pequeno demais?”, e às vezes chega acompanhada de uma frase ouvida de outro profissional, dita como regra.

Entendo a frustração de quem já tinha decidido pelo método e recebeu um “não” sem explicação. Por isso prefiro mostrar o que foi medido. A revisão sistemática de Foran e colaboradores, publicada em 2018 no European Journal of Contraception and Reproductive Health Care, testou exatamente as preocupações que sustentam o mito e concluiu, com essas palavras, que a contracepção intrauterina é apropriada para todas as mulheres clinicamente elegíveis, incluindo as que nunca tiveram filho, e que ela deve fazer parte das opções discutidas na consulta.

De onde vem a ideia de que não pode

O mito tem três raízes, e cada uma recebeu resposta própria nos estudos.

A primeira é o medo de infecção pélvica, que pesa porque a cabeça logo liga infecção a infertilidade. A revisão de 2018 não encontrou diferença nas taxas de infecção entre quem já teve parto e quem não teve. No acompanhamento de oito anos do sistema de levonorgestrel de 52 mg, com 1.751 participantes, das quais 986 nunca tinham tido filho, a infecção pélvica foi diagnosticada em 0,9% ao longo de todo o uso (Creinin et al., 2022).

A segunda é a imagem do útero pequeno, que não conseguiria segurar o dispositivo. A revisão não encontrou diferença de expulsão entre os dois grupos. No mesmo estudo de oito anos, em que a maior parte das participantes não tinha filhos, a expulsão ocorreu em 4,1%.

A terceira, e a que mais faz desistir, é o receio de não conseguir engravidar depois. Foran e colaboradores viram que, depois de tirar o DIU, as mulheres engravidaram nas mesmas taxas da população em geral. O DIU funciona enquanto está dentro do útero, e o efeito acaba quando ele sai.

O que os estudos acharam de diferente, sem disfarce

Seria desonesto parar na parte boa. A mesma revisão de 2018 encontrou, em quem nunca teve filho, mais dificuldade de inserção, mais falha de inserção e mais dor durante a colocação. Sem um parto vaginal prévio, o canal do colo em geral é mais apertado e mais sensível, e é na passagem do aplicador por ele que se concentra o desconforto.

São obstáculos técnicos, não contraindicações, e cada um tem conduta própria. Foi justamente por serem reais e medidos que entraram nas recomendações de 2024 e 2025, em vez de continuarem tratados como algo que a paciente deveria apenas suportar.

O que se mediu Em quem nunca teve filho Fonte
Infecção pélvica Sem diferença em relação a quem teve parto Foran et al., 2018
Expulsão Sem diferença em relação a quem teve parto Foran et al., 2018
Fertilidade após a retirada Sem diferença em relação à população geral Foran et al., 2018
Dor na colocação Maior Foran et al., 2018
Dificuldade de inserção Maior Foran et al., 2018
Falha de inserção Maior, embora a colocação dê certo na maior parte das vezes Foran et al., 2018; Matthews et al., 2016
Exames extras antes Nenhum exame de triagem a mais por não ter filho US SPR 2024
Misoprostol para facilitar Sem diferença na falha de inserção em 6 de 6 ensaios Matthews et al., 2016

E depois de colocado, a experiência muda?

Existe dado brasileiro sobre isso. Um estudo transversal feito em Recife comparou 84 mulheres que nunca tinham engravidado com 73 que já tinham tido parto, todas usando dispositivo intrauterino (Scavuzzi et al., Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 2016). Adesão, satisfação, efeitos adversos, razões para parar e tempo de permanência com o método foram semelhantes nos dois grupos.

Ou seja, a diferença mora na colocação. Depois que o dispositivo está no lugar, a vida com ele se parece nos dois grupos.

Como eu decido se o DIU serve para você

O DIU faz sentido para quem quer contracepção de longa duração sem depender de lembrar todos os dias, e o hormonal também para quem quer reduzir o fluxo menstrual. A elegibilidade segue os critérios médicos da Organização Mundial da Saúde, na 6ª edição de 2025, que analisam condições de saúde e não número de gestações. Nunca ter engravidado não entra nessa conta.

Na avaliação, eu pergunto sobre exames ginecológicos que doeram muito, cirurgia prévia no colo, planos de gestação e o horizonte deles, medicamentos em uso e alergias. O ultrassom transvaginal mostra o formato da cavidade e responde, de forma individual, a pergunta sobre o tamanho do útero. Pelas recomendações americanas de 2024 (US SPR), hemograma, citologia oncótica e sorologias não são pré-requisito para a colocação.

Como eu conduzo a colocação nesse caso

A técnica é a mesma de qualquer colocação. O que muda é a preparação da conversa e a escolha dos recursos de conforto, combinadas antes. O consenso do American College of Obstetricians and Gynecologists de 2025 trata essa decisão compartilhada como parte do procedimento, e não como gentileza, e lembra que adolescentes podem ter tolerância diferente à dor.

Os recursos que se saíram melhor nos estudos recentes servem bem para quem nunca teve filho. O gel de lidocaína 4% ficou em primeiro lugar no ranqueamento de 71 ensaios randomizados com 10.870 mulheres, embora os próprios autores considerem a evidência de baixa qualidade (Ashour et al., 2025). Em seis ensaios somando 651 mulheres, 68% delas sem filhos, o anestésico aplicado dentro da cavidade do útero diminuiu a dor da colocação (De Azevedo et al., 2026). O misoprostol para “abrir o colo” não mudou a falha de inserção em seis de seis ensaios e deixou de ser rotina (Matthews et al., 2016). Detalho tudo isso em dor ao colocar DIU.

Eu faço a colocação no consultório e também no hospital, com sedação. Pelo plano de saúde, ela é feita somente no hospital, com sedação. Quando a tentativa no consultório não avança, o passo seguinte é o hospital, com sedação e sob visão direta pela histeroscopia. Isso não diz que o DIU não é para você. Diz que o seu colo pede outro cenário. O caminho desse pedido está em relatório médico para colocar DIU.

Os primeiros meses com o dispositivo

A cólica forte cede em minutos a poucas horas, e cólica leve com sangramento em borra por alguns dias é comum. O padrão menstrual leva de três a seis meses para se acomodar. O que esperar de cada tipo está em diferença entre DIU de cobre e hormonal, e por que o hormonal pode fazer a menstruação sumir está em sem menstruar com DIU hormonal.

Procure atendimento antes do retorno se houver febre, dor pélvica que piora, corrimento com odor ou sangramento muito volumoso.

A inserção do DIU consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura pelos planos de saúde. A autorização depende de cada contrato, e nunca ter tido filho não altera a análise do pedido.

O que eu sugiro trazer e perguntar na consulta

A consulta rende mais quando você chega com algumas informações organizadas. Nenhuma delas é obrigatória, mas todas mudam alguma decisão no planejamento da colocação:

  • ultrassom transvaginal recente, se você já tiver um;
  • data da última menstruação e o método contraceptivo que usa agora;
  • relato de exames ginecológicos que doeram muito ou terminaram em desmaio;
  • qualquer cirurgia já feita no colo do útero;
  • seus planos de gestação, se existirem, e em que prazo;
  • medicamentos em uso e alergias, principalmente a anestésicos locais.

Também gosto quando a paciente chega com perguntas próprias, porque elas mostram o que mais preocupa. Algumas que eu considero boas para fazer a qualquer médico antes da colocação: existe alguma condição na minha saúde que restrinja o DIU, além de eu não ter filhos? Quais recursos de controle da dor você oferece? Se não der para colocar no consultório, qual é o plano B? No dia em que eu decidir engravidar, o que preciso fazer? Em quanto tempo é o primeiro retorno, e como confiro em casa que o dispositivo continua no lugar?

Se as respostas forem claras, você sai da consulta sabendo exatamente o que esperar do dia da colocação e dos meses seguintes.

Perguntas frequentes

O DIU pode me deixar infértil? Na revisão de 2018, quem retirou o DIU engravidou nas mesmas taxas da população em geral. O efeito depende da presença do dispositivo e termina quando ele é retirado.

Adolescente pode usar DIU? A elegibilidade segue os critérios da OMS, que olham condições de saúde e não a idade isolada. Como adolescentes podem ter tolerância diferente à dor, combino o controle da dor antes.

Vai doer mais em mim? Tende a doer mais, e isso está medido. A resposta prática é escolher o recurso de conforto com antecedência e combinar o sinal para parar.

Como sei se o DIU saiu do lugar? Vale ser examinada se surgir uma cólica que não passa e é diferente da de costume, um sangramento que foge do seu padrão, dor na relação que antes não havia, ou se você sentir os fios mais curtos, mais longos ou não os encontrar. A posição é confirmada pelo ultrassom.

Quando eu quiser engravidar, o que faço? Marca a retirada. O dispositivo sai no consultório e o efeito contraceptivo termina com ele.

Se quiser conversar sobre o seu caso antes de decidir, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Referências

  1. Foran T, Butcher BE, Kovacs G, Bateson D, O’Connor V. Safety of insertion of the copper IUD and LNG-IUS in nulliparous women: a systematic review. Eur J Contracept Reprod Health Care. 2018;23(5):379-386. DOI 10.1080/13625187.2018.1526898 · PMID 30382754
  2. World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use. 6th ed. Geneva: World Health Organization; 2025. PMID 41325508
  3. Curtis KM, Nguyen AT, Tepper NK, et al. U.S. Selected Practice Recommendations for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(3):1-77. DOI 10.15585/mmwr.rr7303a1 · PMID 39106301
  4. Creinin MD, Schreiber CA, Turok DK, Cwiak C, Chen BA, Olariu AI. Levonorgestrel 52 mg intrauterine system efficacy and safety through 8 years of use. Am J Obstet Gynecol. 2022;227(6):871.e1-871.e7. DOI 10.1016/j.ajog.2022.05.022 · PMID 35569516
  5. Matthews LR, O’Dwyer L, O’Neill E. Intrauterine Device Insertion Failure After Misoprostol Administration: A Systematic Review. Obstet Gynecol. 2016;128(5):1084-1091. DOI 10.1097/AOG.0000000000001696 · PMID 27741184
  6. Ashour A, H Saad A, Elzahaby I. Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials Comparing Safety and Efficacy of Pharmacological Treatments in Reducing Pain During Intrauterine Device Insertion. Sultan Qaboos Univ Med J. 2025;25(1):813-838. DOI 10.18295/2075-0528.2900 · PMID 41127231
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  8. American College of Obstetricians and Gynecologists’ Committee on Clinical Consensus-Gynecology. Pain Management for In-Office Uterine and Cervical Procedures: ACOG Clinical Consensus No. 9. Obstet Gynecol. 2025;146(1):161-177. DOI 10.1097/AOG.0000000000005911 · PMID 40373312
  9. Scavuzzi A, Amorim MMR, Souza ASR. Continued Compliance and Degree of Satisfaction in Nulligravida and Parous Women with Intrauterine Contraceptive Devices. Rev Bras Ginecol Obstet. 2016;38(3):132-139. DOI 10.1055/s-0036-1580709 · PMID 27022785
Dr. José Ricardo W. Ristow, ginecologista

Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico

Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.

Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.

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