A resposta
O risco de câncer em pólipo endometrial é baixo: cerca de 3 em cada 100 pólipos têm lesão maligna. A grande maioria é benigna. Mas esse risco muda bastante depois da menopausa, e é isso que mais pesa na conversa sobre acompanhar ou retirar.
Sei que a palavra pólipo no laudo costuma vir acompanhada de uma única pergunta, e que a espera até a consulta com ela na cabeça é longa. Por isso começo pelo número, e depois explico o que faz ele subir ou descer.
O que é o pólipo, e por que ele pode ter alteração
O pólipo é uma pequena projeção da camada interna do útero, o endométrio, que cresce para dentro da cavidade. Esse tecido responde aos hormônios, e quando fica anos sob estímulo sem o equilíbrio adequado, pode crescer de forma desorganizada.
O pólipo não é a causa do problema. Ele funciona como uma amostra do que está acontecendo no endométrio. Às vezes, uma alteração que aparece no pólipo indica que existe algo também em outro ponto do útero, e por isso o resultado da análise importa tanto.
O que aumenta o risco
| Situação | O que acontece com o risco | Por quê |
|---|---|---|
| Estar depois da menopausa | Sobe bastante, cerca de 5 vezes | É o fator de maior peso |
| Ter sangramento | Sobe | O sangramento acompanha mais as lesões alteradas |
| Pólipo maior que 13 mm | Sobe | Tamanho foi o que mais ajudou a prever o risco na menopausa |
| Idade mais alta e obesidade | Sobe | A associação apareceu numa série de quase mil mulheres operadas |
| Usar tamoxifeno | Os pólipos são mais frequentes, mas tendem a ser benignos | O acompanhamento segue regra própria |
Antes da menopausa e sem sangramento, o risco é bem menor do que a média.
O ultrassom diz se é maligno?
Não. O ultrassom mede, mostra onde está e sugere pelo aspecto, mas não dá a resposta final. Quem responde é o exame do tecido no microscópio.
Por isso, quando há indicação, retiro o pólipo por histeroscopia: uma câmera fina passa pelo colo do útero, eu vejo o pólipo e tiro ele inteiro, com a base. Todo o material vai para análise. Esse jeito de colher, vendo o que está sendo retirado, acerta mais do que colher às cegas.
Como é a retirada
A histeroscopia para retirar pólipo é feita sem internação, e você vai para casa no mesmo dia. Cólica leve costuma durar um ou dois dias, e um pouco de sangramento pode aparecer por alguns dias.
O que muda conforme o laudo
Se o laudo vier benigno, e na maioria das vezes vem, o assunto se encerra, com consultas de rotina. Se vier com hiperplasia sem atipia, que é um crescimento exagerado sem células alteradas, o tratamento costuma ser com remédio e controle. Se vier com atipia, que são células alteradas, a conduta se amplia, porque pode existir lesão em outro ponto do útero. Num grupo de mulheres com atipia só no pólipo que depois retiraram o útero, metade tinha câncer em outro ponto dele. Se vier câncer, o encaminhamento para o especialista em câncer ginecológico é imediato.
Perguntas frequentes
Qual a chance do meu pólipo ser câncer? Na média, cerca de 3 em cada 100. Depois da menopausa ou com sangramento, a chance é maior. Antes da menopausa e sem sangramento, é menor.
Pólipo na menopausa é mais preocupante? É o ponto que mais pesa: depois da menopausa, a chance de alteração dentro do pólipo é maior, e qualquer sangramento nessa fase é investigado sem demora.
Tamoxifeno piora o pólipo? Quem usa tamoxifeno tem mais pólipos, mas eles tendem a ser benignos. O acompanhamento do útero nesse caso segue regra própria.
Se eu esperar, o pólipo vira câncer? O que se mede é a alteração que já existe no momento da retirada, e não uma transformação com data marcada. Mas adiar a investigação de um sangramento depois da menopausa atrasa o diagnóstico.
O que é atipia no laudo? São células alteradas, consideradas um passo antes do câncer. Quando aparece, examino o útero inteiro, não só o pólipo.
Se quiser trazer o seu laudo para conversarmos sobre ele, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
Qual é o risco, em números?
Quando entrego o resultado de um ultrassom com pólipo, a pergunta que vem antes de qualquer outra é se aquilo pode ser câncer. Eu respondo com números, porque eles costumam acalmar mais do que qualquer frase genérica, e porque mostram onde está o cuidado de verdade.
A maior reunião de dados disponível é a meta-análise de Al-Rayes e colaboradores, publicada em 2025 na Gynecology and Minimally Invasive Therapy. Ela somou 11.204 pacientes com pólipo endometrial:
- 287 tinham lesão maligna, o que corresponde a 2,75%;
- 1,8% tinham hiperplasia com atipia, alteração considerada pré-maligna;
- 5,2% tinham hiperplasia sem atipia.
No Brasil, o protocolo de pólipo uterino da FEBRASGO, escrito por Lasmar e colaboradores em 2020, aponta um número parecido: de 0,5% a 3% dos pólipos endometriais têm lesão maligna.
A maioria dos pólipos, portanto, é benigna. Mas 2,75% é uma média, e a média esconde diferenças grandes entre grupos de mulheres.
A menopausa muda a conta?
Muda bastante. Para as mulheres já na menopausa, a meta-análise de 2025 encontrou uma chance 5,63 vezes maior de o pólipo trazer lesão pré-maligna ou maligna (intervalo de confiança de 3,87 a 8,20). Antes da menopausa, o risco é bem menor. Depois dela, deixa de ser desprezível. Por isso não existe uma conduta única para pólipo: a decisão se divide nesses dois momentos da vida.
Na consulta, a primeira coisa que confirmo é em qual desses dois momentos você está, porque é isso que define se a conversa vai ser sobre acompanhar o pólipo ou sobre retirá-lo.
Quais outros fatores aumentam o risco?
| Fator | O que a evidência mostra | Fonte |
|---|---|---|
| Pós-menopausa | OR 5,63 (IC 95% 3,87 a 8,20) para lesão pré-maligna ou maligna | Al-Rayes et al., 2025 |
| Sangramento uterino anormal | Maior probabilidade de lesão pré-maligna ou maligna | Al-Rayes et al., 2025 |
| Pólipo maior que 13 mm | Principal preditor no modelo de árvore de decisão, em 240 mulheres na pós-menopausa | Wong M et al., 2021 |
| Idade mais avançada e obesidade | Associação significativa com pólipo pré-maligno ou maligno, em 946 casos | Wong CLH e So, 2021 |
| Endométrio mais espesso ao redor | Diferença média de 4,2 mm (IC 95% 0,8 a 7,6) nos casos com lesão | Al-Rayes et al., 2025 |
| Uso de tamoxifeno | OR 0,50 (IC 95% 0,26 a 0,94), ou seja, menor probabilidade de lesão no pólipo | Al-Rayes et al., 2025 |
Dois pontos dessa tabela costumam gerar confusão no consultório.
O primeiro é o tamoxifeno. Ele é lembrado como fator de risco, e a meta-análise de 2025 encontrou o oposto dentro do pólipo: quem usa o remédio tem mais pólipos, e esses pólipos tendem a ser benignos. Isso não dispensa a avaliação, porque o tamoxifeno age sobre o endométrio inteiro, e o acompanhamento de quem o usa tem regras próprias.
O segundo é o número de 7,5%, que aparece em muitos textos. Ele vem de um estudo específico: 240 mulheres na pós-menopausa encaminhadas para cirurgia, 181 delas por sangramento, entre as quais 18 tinham lesão pré-maligna ou maligna (Wong M e colaboradores, 2021). É um grupo já escolhido justamente por ter sintoma, o que explica um percentual acima do encontrado entre todas as mulheres com pólipo. Esse mesmo estudo separou três faixas de risco combinando o diâmetro do pólipo, o índice de massa corporal e o aspecto no ultrassom: baixo, de até 5%; intermediário, acima de 5% e até 20%; e alto, acima de 20%.
Por que um pólipo pode esconder uma alteração?
O pólipo nasce da camada interna do útero, o endométrio, que responde ao estrogênio. Quando esse estímulo age por anos sem o contrapeso adequado da progesterona, as glândulas do endométrio podem se multiplicar de forma desorganizada. Essa desorganização tem graus: hiperplasia sem atipia, hiperplasia com atipia e, no extremo, carcinoma de endométrio.
Essa sequência não é provocada pelo pólipo. Muitas vezes, porém, é nele que ela se mostra antes, e por isso eu o enxergo como uma amostra do que acontece no endométrio como um todo. Um dado deixa isso concreto. Numa série de 946 mulheres operadas por histeroscopia, publicada por Wong CLH e So em 2021, havia 10 com hiperplasia com atipia restrita ao pólipo que depois fizeram histerectomia. Cinco delas tinham carcinoma de endométrio em outro ponto do útero. Metade. O pólipo sinalizou um problema que ia além dele.
O protocolo de hiperplasia endometrial da FEBRASGO, de 2025, chega a uma conclusão parecida por outro caminho. Segundo o documento, na hiperplasia com atipia o câncer de endométrio pode estar associado em cerca de 40% dos casos, enquanto na hiperplasia sem atipia a evolução para câncer fica abaixo de 1%. É por isso que, quando leio um laudo, a palavra atipia é a que mais pesa.
O ultrassom consegue dizer se é benigno?
Não. O ultrassom, a histerossonografia e mesmo o que eu vejo durante a histeroscopia levantam suspeitas, mas a resposta definitiva só vem da análise do tecido no microscópio.
Em 2026, a diretriz conjunta da AAGL, da ESGE e da Global Community on Hysteroscopy revisou os estudos e concluiu que, havendo indicação de avaliar o endométrio por sangramento anormal ou depois da menopausa, a amostra deve ser colhida por biópsia guiada pela visão, e não às cegas. Para câncer de endométrio, neoplasia intraepitelial, hiperplasia, pólipo e mioma submucoso, a histeroscopia acertou mais, tanto ao encontrar a lesão quanto ao descartá-la. Na prática, o que eu faço é retirar o pólipo inteiro, com a base, e mandar todo o material para análise.
Isso não quer dizer que o ultrassom seja inútil. No modelo de Wong M e colaboradores, de 2021, o diâmetro medido no exame ajudou a separar grupos de risco, e o aspecto da imagem entrou na mesma conta. O ultrassom me ajuda a decidir quem precisa de retirada e com que prioridade. O que ele não faz é dar o diagnóstico final.
Como é a retirada, e o que acontece depois do laudo?
A retirada por histeroscopia é ambulatorial, com alta no mesmo dia. Cólica leve costuma durar um a dois dias, e o escape de sangue, alguns dias.
O que vem depois depende do laudo:
| Resultado da análise | Conduta habitual |
|---|---|
| Pólipo benigno | Encerra o episódio, com seguimento ginecológico de rotina |
| Hiperplasia sem atipia | Tratamento clínico, muitas vezes hormonal, e controle do endométrio |
| Hiperplasia com atipia | Conduta ampliada, porque pode haver lesão além do pólipo (Wong CLH e So, 2021) |
| Carcinoma de endométrio | Encaminhamento para oncologia ginecológica e estadiamento |
Quando o resultado é benigno, e na maior parte das vezes ele é, o assunto termina ali. Quando vem alterado, o caminho já está traçado e começa sem demora.
O que levar para a consulta
- Laudo e imagens do ultrassom transvaginal, com a medida do pólipo e a espessura do endométrio
- Data do último sangramento, ou o ano da última menstruação se você já está na menopausa
- Remédios em uso, com atenção a tamoxifeno e terapia hormonal
- Biópsia de endométrio anterior, se houver
- Casos de câncer de endométrio, intestino ou ovário na família
Perguntas para levar ao seu cirurgião
- No meu caso, qual é o risco estimado de lesão pré-maligna ou maligna?
- Para essa conta, eu estou antes ou depois da menopausa?
- O tamanho e a aparência do pólipo no exame alteram esse risco?
- Todo o material vai para análise, inclusive a base?
- Se o laudo vier com hiperplasia com atipia, qual é o passo seguinte?
- Além do pólipo, há alguma outra área do endométrio que precisa ser examinada?
Essas perguntas transformam a estatística geral numa estimativa do seu caso. É essa conversa que eu procuro ter antes de qualquer indicação de retirada.
Perguntas frequentes
Qual é a chance de o meu pólipo ser câncer? Na meta-análise de Al-Rayes e colaboradores, de 2025, foi de 2,75% no conjunto. Estar na menopausa multiplicou essa chance por 5,63, e o sangramento anormal também a aumentou. Antes da menopausa e sem sangramento, o risco é bem menor.
Pólipo na menopausa é mais preocupante? É. Esse é o fator de maior peso na meta-análise de 2025, e qualquer sangramento nessa fase entra em investigação sem demora.
Sangramento depois da menopausa pode ser pólipo? Pode, e está entre as causas mais comuns. Como a mesma queixa também pode vir de hiperplasia ou de câncer de endométrio, qualquer sangramento nessa fase é investigado logo, sem aguardar para ver se volta.
Pólipo endometrial é grave? Quase sempre não: o pólipo costuma ser benigno e, quando dá sintoma, em geral é sangramento. Ele merece mais atenção na pós-menopausa, quando sangra, quando passa de 13 mm ou quando o endométrio ao redor está espesso.
Tamoxifeno aumenta o risco de câncer no pólipo? Quem usa tamoxifeno tem mais pólipos, mas na meta-análise de 2025 esses pólipos tiveram menor probabilidade de lesão, com OR 0,50. O acompanhamento do endométrio nesse grupo segue regra própria.
O que significa atipia no laudo? Significa que a conduta vai além do pólipo. Na série de Wong CLH e So, de 2021, metade das mulheres com atipia restrita ao pólipo tinha carcinoma em outro ponto do útero.
Se eu demorar para tirar, o pólipo vira câncer? O que a evidência mede é a alteração que já existe dentro do pólipo no momento da retirada, e não uma transformação com prazo marcado. Ainda assim, adiar a investigação de um sangramento depois da menopausa atrasa o diagnóstico do que estiver ali. Explico essa regra em sangramento depois da menopausa.
Se quiser trazer o seu laudo e conversar sobre o que ele significa no seu caso, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.
Referências
- Al-Rayes S, Mohamed M, Suarthana E, Kigloo HN, Raina J, Tulandi T. Risks of Malignancy among 11,204 Patients with Endometrial Polyp: A Systematic Review and Meta-analysis. Gynecol Minim Invasive Ther. 2025;14(1):40-50. DOI 10.4103/gmit.GMIT-D-24-00056 · PMID 40143979
- Wong CLH, So PL. Prevalence and risk factors for malignancy in hysteroscopy-resected endometrial polyps. Int J Gynaecol Obstet. 2021;155(3):433-441. DOI 10.1002/ijgo.13656 · PMID 33621356
- Wong M, Thanatsis N, Nardelli F, Amin T, Jurkovic D. Risk of Pre-Malignancy or Malignancy in Postmenopausal Endometrial Polyps: A CHAID Decision Tree Analysis. Diagnostics (Basel). 2021;11(6):1094. DOI 10.3390/diagnostics11061094 · PMID 34203810
- Bougie O, Randle E, Thurston J, Magee B, Warshafsky C, Rittenberg D. Guideline No. 447: Diagnosis and Management of Endometrial Polyps. J Obstet Gynaecol Can. 2024;46(3):102402. DOI 10.1016/j.jogc.2024.102402 · PMID 38325734
- Joint Society Practice Guideline from AAGL-ESGE-GCH. Visually Directed Hysteroscopic Biopsy in the Evaluation of Abnormal Uterine Bleeding and Postmenopausal Bleeding. J Minim Invasive Gynecol. 2026;33(8):1027-1040. DOI 10.1016/j.jmig.2026.06.018 · PMID 42336133
- Lasmar RB, Lasmar BP, Zagury DBR, Bruno R, Cardeman L. Pólipo uterino. Protocolo FEBRASGO de Ginecologia nº 7. Femina. 2020;48(1):54-58. DOI 10.61622/0100-7254481202007
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Hiperplasia endometrial. Protocolo FEBRASGO de Ginecologia nº 31. Femina. 2025;53(6):841-847. DOI 10.61622/0100-7254536202509

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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