A resposta
Pode ser perimenopausa, sim. É a fase de transição antes da última menstruação, e o primeiro sinal costuma ser justamente o ciclo que muda: adianta, atrasa e, mais tarde, começa a falhar.
E, na maioria das vezes, não é preciso exame de hormônio para saber. Depois dos 45 anos, se o ciclo mudou e apareceram sintomas como fogachos, a diretriz britânica sobre menopausa recomenda fazer o diagnóstico pela conversa.
Por que o FSH costuma não ajudar?
Porque, nessa fase, os hormônios sobem e descem de um mês para o outro. Um FSH normal hoje não quer dizer que você não esteja na transição. Um FSH alto num mês também não fecha o diagnóstico.
| Sua idade | O FSH ajuda? |
|---|---|
| 45 anos ou mais, com sintomas | Não é necessário |
| Entre 40 e 45 anos | Pode ajudar a confirmar |
| Menos de 40 anos | Sim, faz parte da investigação |
| Usando pílula, adesivo ou anel com dois hormônios | Não, o remédio altera o resultado |
Antes dos 40, parar de menstruar não é o esperado. Pode ser insuficiência ovariana prematura, que uma diretriz europeia de 2024 estima em 3,5% das mulheres, e precisa de avaliação.
O que conta como ciclo “desregulado”?
| O que observar | Normal | Fora do normal |
|---|---|---|
| Intervalo entre as menstruações | De 24 a 38 dias | Menos de 24 ou mais de 38 |
| Dias de sangramento | Até 8 | Mais de 8 |
| Diferença entre o ciclo mais curto e o mais longo | Até 7 a 9 dias | Maior que isso |
Na perimenopausa, o primeiro sinal é uma diferença de 7 dias ou mais entre um ciclo e o seguinte, que se repete. Depois vêm intervalos de 60 dias ou mais sem menstruar.
Quais exames eu costumo pedir?
Não uma lista de hormônios. Sigo o protocolo da FEBRASGO:
- teste de gravidez, quando há atraso ou sangramento diferente;
- hemograma, se o fluxo aumentou;
- ultrassom transvaginal, se o sangramento mudou de padrão;
- prolactina e tireoide, porque também desregulam o ciclo.
Quando não dá para esperar
Alguns sangramentos precisam de investigação, e não só de paciência:
- sangramento muito forte ou que causa anemia;
- sangramento entre as menstruações ou depois da relação;
- menstruação com intervalo menor que 24 dias;
- sangramento que dura mais de 8 dias;
- qualquer sangramento depois de um ano sem menstruar.
Depois dos 45 anos, ou com fatores como obesidade, diabetes e pressão alta, a avaliação do endométrio (a camada de dentro do útero) ganha mais importância.
O que levar para a consulta
- As datas das últimas seis menstruações, ou o aplicativo de ciclo
- Quantos dias dura o sangramento e se o fluxo aumentou
- Sintomas novos, como fogachos, suor à noite e sono pior
- Remédios e anticoncepcionais em uso
- Exames que você já tenha feito, inclusive os de hormônio
Anotar o ciclo mês a mês costuma dizer mais do que um exame de sangue isolado.
Perguntas rápidas
Ainda posso engravidar? Enquanto houver menstruação, mesmo irregular, a gravidez é possível. A contracepção entra na conversa.
Quanto tempo dura essa fase? Varia de mulher para mulher. Só a parte final da transição dura, em média, de um a três anos.
Meu FSH veio normal, mas tenho fogachos. Pode ser perimenopausa mesmo assim. O exame oscila muito nessa fase.
Meu FSH veio alto. Já estou na menopausa? Não só por isso. A menopausa é confirmada depois de doze meses sem menstruar, e nessa fase o FSH sobe e desce de um mês para o outro.
Tenho 38 anos e a menstruação parou. O que faço? Procure avaliação. Antes dos 40 a suspeita é de insuficiência ovariana prematura, e aí o exame de sangue é necessário para confirmar.
Se o seu ciclo mudou e você quer entender em que fase está, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
A resposta curta
Pode ser, e na maioria das vezes o diagnóstico é feito sem exame de hormônio. Depois dos 40, um ciclo que começa a variar de duração é o sinal mais comum da perimenopausa, a fase de transição que antecede a última menstruação. Depois dos 45 anos, com sintomas compatíveis, a diretriz NG23 do NICE, o órgão britânico que avalia evidência em saúde, orienta identificar a perimenopausa sem exame de laboratório. Entre 40 e 45, o FSH pode ajudar a confirmar. Antes dos 40, ele é necessário.
O que nunca deve ficar para depois, em qualquer idade, é o sangramento que foge do padrão de “ciclo bagunçado”: sangrar muito, sangrar entre as menstruações ou depois da relação. Esse tipo de sangramento pede investigação própria, e explico abaixo como separo uma coisa da outra.
O que é “ciclo desregulado” para o médico?
A FEBRASGO, no protocolo de sangramento uterino anormal de 2026, usa os parâmetros da FIGO, a federação internacional de ginecologia. Um ciclo normal vem a cada 24 a 38 dias, o sangramento dura até 8 dias, e a diferença entre o ciclo mais curto e o mais longo fica em até 7 a 9 dias. Intervalo menor que 24 dias é ciclo frequente; maior que 38, infrequente; sangramento de mais de 8 dias é prolongado.
Na perimenopausa, o sistema STRAW+10, publicado por Harlow e colaboradores em 2012, define as etapas pelo próprio ciclo:
| Etapa (STRAW+10) | O que acontece com o ciclo | O que costuma acompanhar |
|---|---|---|
| Fase reprodutiva tardia | Ciclos ainda regulares, às vezes um pouco mais curtos | Poucos sintomas |
| Transição inicial | Diferença persistente de 7 dias ou mais entre ciclos seguidos | Ciclos que adiantam e atrasam |
| Transição tardia | Intervalos de 60 dias ou mais sem menstruar | Fogachos mais frequentes; dura em média 1 a 3 anos |
| Pós-menopausa | Doze meses sem menstruar confirmam a última menstruação | Sintomas podem continuar |
“Persistente”, no STRAW+10, quer dizer que a variação volta a aparecer em até dez ciclos depois da primeira. Um ciclo estranho isolado, depois de uma viagem ou de um mês difícil, não basta.
Por que o ciclo muda nessa fase?
A reserva de folículos do ovário diminui com a idade, e o eixo que comanda o ciclo passa a trabalhar de forma irregular. O STRAW+10 descreve que, já na transição inicial, o hormônio antimülleriano e a contagem de folículos estão baixos, enquanto o FSH do início do ciclo sobe, mas de forma variável. Na transição tardia, os ciclos sem ovulação ficam mais frequentes e as oscilações hormonais se tornam extremas.
Na prática, isso explica duas queixas que ouço muito no consultório nessa idade. A primeira é o ciclo que encurta e depois alonga, sem padrão. A segunda é a menstruação que, num mês, vem escassa e, no outro, vem volumosa. Nenhuma delas, sozinha, prova que é a transição, mas o conjunto, na idade certa, aponta para ela.
Por que dosar FSH costuma não ajudar?
Porque, na transição, o ovário oscila. O STRAW+10 descreve que na transição tardia o FSH às vezes sobe até a faixa da menopausa e às vezes volta à faixa dos anos reprodutivos, com flutuações extremas. Um exame colhido num dia diz pouco sobre o mês seguinte.
Por isso o NICE é direto:
- 45 anos ou mais, com sintomas: perimenopausa identificada pelos sintomas recentes (como fogachos) somados à mudança do ciclo, sem exame.
- Depois dos 45, não usar hormônio antimülleriano, inibina, estradiol, contagem de folículos nem volume do ovário para esse fim.
- Entre 40 e 45 anos, com sintomas e mudança do ciclo: o FSH pode ser considerado para confirmar.
- Abaixo de 40, com suspeita de menopausa: o FSH entra na investigação.
- Em uso de pílula, adesivo ou anel com estrogênio e progestagênio, ou de progestagênio em dose alta: não usar o FSH, porque o remédio altera o resultado.
No consultório, é comum eu receber exames de FSH, estradiol e hormônio antimülleriano pedidos “para ver se já é menopausa”. Eu explico que um valor normal não exclui a transição e que um valor alto isolado não fecha o diagnóstico. A história do ciclo, anotada mês a mês, costuma dizer mais que o laboratório. Detalho as idades e as definições em como saber se já entrei na menopausa.
E antes dos 40?
Aí a conduta muda. Menopausa antes dos 40 é chamada de insuficiência ovariana prematura, e a diretriz da ESHRE de 2024 (Panay e colaboradores) estima que ela ocorra em 3,5% das mulheres. As diretrizes divergem no exame: o NICE pede FSH elevado em duas dosagens, com quatro a seis semanas de intervalo; a ESHRE aceita um único FSH acima de 25 UI/L e reserva a repetição para a dúvida. Em qualquer das duas, a investigação vale a pena, porque a falta precoce de estrogênio tem efeito sobre osso e coração e pede acompanhamento mais próximo.
Quais exames eu peço quando o ciclo desregula?
Ciclo irregular depois dos 40 não é sinônimo de perimenopausa. O protocolo da FEBRASGO lista o que investigar, e eu sigo essa lógica:
| Exame | Para quê | Quando |
|---|---|---|
| Beta-hCG | Afastar gravidez | Sempre que há atraso ou sangramento diferente |
| Hemograma | Ver se o sangramento causou anemia | Quando o fluxo aumentou |
| Ultrassom transvaginal | Procurar causa estrutural (pólipo, mioma, adenomiose, espessamento do endométrio) | Quando o sangramento mudou de padrão |
| Prolactina e função da tireoide | Afastar outras causas de falha da ovulação | Na irregularidade do ciclo |
| Biópsia do endométrio ou histeroscopia | Avaliar o endométrio | Conforme o ultrassom, a idade e os fatores de risco |
A própria FEBRASGO registra que outras dosagens hormonais só se justificam em casos isolados. Ou seja, a investigação do ciclo irregular gira em torno de gravidez, estrutura do útero e causas de falta de ovulação, e não de uma lista de hormônios.
Qual sangramento precisa de investigação, e não só de paciência?
Na transição, faltam ovulações. Sem ovulação, o endométrio fica exposto ao estrogênio sem a contrapartida da progesterona, e o sangramento pode ficar irregular e abundante. Na maior parte das vezes, isso é a própria transição. Mas a FEBRASGO lembra que o risco de doença do endométrio aumenta com a idade e com fatores como obesidade, hipertensão, diabetes, nunca ter tido filhos e anovulação crônica, e indica a biópsia endometrial especialmente acima dos 45 anos ou quando esses fatores existem, além dos casos de sangramento persistente e sem resposta ao tratamento.
Os sinais que me fazem investigar, em vez de esperar:
- sangramento muito volumoso ou que causa anemia;
- sangramento entre as menstruações ou depois da relação;
- ciclos frequentes, com intervalo menor que 24 dias;
- sangramento prolongado, por mais de 8 dias;
- qualquer sangramento depois de doze meses sem menstruar.
Os sistemas da FIGO, revisados por Munro e colaboradores em 2018, organizam as causas pelo acrônimo PALM-COEIN, que separa causas estruturais (pólipo, adenomiose, mioma, lesão maligna ou pré-maligna) das não estruturais, como os distúrbios de ovulação. Escrevi sobre o escape fora de época em escape entre as menstruações e sobre o sangramento depois da menopausa em sangrei uma vez depois da menopausa.
Ainda preciso de anticoncepcional?
Enquanto houver menstruação, mesmo irregular, a ovulação pode acontecer. O NICE orienta que a contracepção faça parte da conversa com toda mulher que tem sintomas da menopausa. Quando a mulher usa método hormonal, o ciclo e o FSH deixam de servir como marcadores, e a decisão sobre quando parar o método é tomada em consulta, olhando idade e sintomas.
O que levar para a consulta
- As datas das últimas seis menstruações, ou o aplicativo de ciclo
- Quantos dias dura o sangramento e se houve aumento do fluxo
- Sintomas novos: fogachos, suor noturno, sono pior, alteração de humor
- Remédios e métodos anticoncepcionais em uso
- Exames recentes, inclusive os de hormônio que você já tenha feito
- Idade em que sua mãe entrou na menopausa, se souber
Perguntas frequentes
Meu FSH veio normal. Então não é perimenopausa? Não necessariamente. Na transição o FSH oscila, e um resultado normal num mês não exclui a fase.
Meu FSH veio alto. Já estou na menopausa? Não só por isso. A menopausa é confirmada por doze meses sem menstruar, e na transição o FSH sobe e desce.
Quanto tempo dura a perimenopausa? Varia. Pelo STRAW+10, só a transição tardia dura em média de um a três anos; a inicial tem duração variável.
Posso engravidar na perimenopausa? Enquanto houver ciclos, a ovulação pode ocorrer. Por isso a contracepção entra na conversa.
Sangrar mais forte aos 45 é normal? Pode acontecer na transição, mas sangramento volumoso, com anemia ou fora do padrão, pede avaliação do útero e do endométrio.
Tenho 38 anos e a menstruação parou. O que faço? Procure avaliação. Antes dos 40 a suspeita é de insuficiência ovariana prematura, e o diagnóstico precisa de exame.
Se o seu ciclo mudou e você quer entender o que está acontecendo, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477 e conversamos com calma.
Referências
- Harlow SD, Gass M, Hall JE, Lobo R, Maki P, Rebar RW, et al. Executive summary of the Stages of Reproductive Aging Workshop + 10: addressing the unfinished agenda of staging reproductive aging. Menopause. 2012;19(4):387-395. DOI 10.1097/gme.0b013e31824d8f40 · PMID 22343510
- National Institute for Health and Care Excellence. Menopause: identification and management (NG23). Publicada em 12/11/2015, última atualização em 15/04/2026. nice.org.uk/guidance/ng23
- Panay N, Anderson RA, Bennie A, Cedars M, Davies M, Ee C, et al. Evidence-based guideline: premature ovarian insufficiency. Hum Reprod Open. 2024;2024(4):hoae065. DOI 10.1093/hropen/hoae065 · PMID 39660328
- Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-235. DOI 10.61622/0100-7254543202609
- Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. Int J Gynaecol Obstet. 2018;143(3):393-408. DOI 10.1002/ijgo.12666 · PMID 30198563

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 5 de novembro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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