Preciso operar ou posso esperar?
Na maioria das vezes, você pode esperar: o mioma só precisa de cirurgia quando causa um problema concreto. Nódulo que não dá sintoma é acompanhado com ultrassom, sem operação.
Sei que ver essa palavra no laudo dá um aperto, e que o medo de verdade costuma ser outro: perder o útero. Eu entendo esse medo e respondo a ele com critério, não com pressa. No consultório, eu olho para três coisas: onde o nódulo está, o que ele está causando e se você quer engravidar.
O tamanho, sozinho, engana. Um mioma de 2 cm que cresce para dentro do útero e faz você sangrar até ficar anêmica pede tratamento antes de um de 7 cm do lado de fora, que não incomoda.
Por que o mioma aparece e quando ele atrapalha
O mioma é um nódulo do próprio músculo do útero. Ele cresce com os hormônios do ciclo menstrual, por isso surge na fase em que você menstrua e costuma parar de crescer depois da menopausa.
Ter mioma é comum. Ele atrapalha quando ocupa o espaço oco do útero, onde a menstruação se forma, e faz sangrar mais; quando cresce para fora e aperta a bexiga ou o intestino; ou quando o sangramento tira tanto ferro do corpo que leva à anemia. A anemia chega devagar, e muita gente acha que é só cansaço.
Quando eu indico cirurgia
Eu indico tratamento quando há sangramento forte com anemia ou que atrapalha o dia a dia; barriga aumentada, vontade de urinar toda hora ou dificuldade para evacuar; dor na pelve causada pelo mioma; nódulo que deforma o útero em quem quer engravidar ou já perdeu gestações; e mioma que cresce depois da menopausa.
Existe ainda um motivo silencioso: o mioma que aperta o ureter, o canal fino que leva a urina do rim até a bexiga. Quando isso acontece, o rim incha e pode perder função sem doer. Esse achado no exame muda a conduta mesmo sem sangramento.
| Onde está o mioma | O que costuma causar | O que eu costumo propor |
|---|---|---|
| Dentro do espaço oco do útero | Sangramento forte, anemia, dificuldade para engravidar | Retirada pelo canal do colo, sem corte na barriga |
| Na parede, encostando no espaço oco | Sangramento e cólica | Remédio primeiro, cirurgia se não melhorar |
| Todo dentro da parede | Peso e barriga maior | Depende do sintoma e do plano de ter filhos |
| Para fora do útero | Aperto na bexiga, no intestino ou no canal da urina | Cirurgia por vídeo quando incomoda |
| Crescendo depois da menopausa | Comportamento fora do esperado | Investigar antes de decidir |
Remédio resolve?
Para algumas mulheres, sim. Pílula combinada, remédio com progesterona e DIU hormonal diminuem o sangramento enquanto estão em uso. Também existem remédios mais novos, feitos especificamente para mioma, que reduzem o sangramento em cerca de 7 em cada 10 mulheres. O nódulo não desaparece, e o sintoma pode voltar quando o remédio para.
Como é a cirurgia
O caminho depende da posição do mioma. O que está dentro do útero sai pelo canal do colo, com uma câmera fina, sem nenhum corte na barriga. O que está na parede ou do lado de fora sai por cirurgia por vídeo, com furos de poucos milímetros. O corte maior fica para úteros muito grandes.
Tirar o útero é uma opção possível, nunca a única. Durante a retirada do mioma, existe a chance de ser preciso tirar o útero, e eu explico isso antes, para a decisão ser sua.
Quanto tempo para voltar ao normal
Depois da retirada pelo canal do colo, a volta à rotina é rápida. Depois da cirurgia por vídeo, ficam algumas semanas sem esforço físico. Com corte maior, o prazo é mais longo. No tratamento que destrói o nódulo com calor, a maioria volta ao trabalho em cerca de duas semanas.
Os riscos eu conto antes: sangramento que pode pedir transfusão, infecção, lesão de órgão vizinho, aderências e o aparecimento de novos miomas.
Perguntas frequentes
Mioma sem sintoma precisa operar? Em geral, não. Ele é acompanhado com exames.
Mioma causa anemia? Pode. Por isso eu peço exame de sangue, e não só o ultrassom.
Tenho vários miomas. Tiro todos? Nem sempre. Saem os que causam o sintoma ou deformam o útero. Os pequenos e quietos podem ficar.
Existe tratamento sem corte? Sim, para o mioma que está dentro do útero: ele sai pelo canal do colo.
O mioma diminui na menopausa? Costuma parar ou encolher. Se crescer depois da menopausa, precisa ser investigado.
O mioma volta depois da cirurgia? A cirurgia tira os nódulos de hoje, mas outros podem aparecer.
Se quiser entender o que o seu exame mostra, me mande uma mensagem no WhatsApp (11) 93371-4477 e conversamos com calma.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
Tenho mioma. Preciso operar agora ou posso esperar?
É a pergunta que mais escuto no consultório depois de um ultrassom com a palavra mioma no laudo. Quase sempre ela chega acompanhada de outra, dita mais baixo: “vou perder o útero?”. Começo pela parte que costuma aliviar. Na maioria das mulheres, o mioma não pede cirurgia. A diretriz nº 461 da Society of Obstetricians and Gynaecologists of Canada (Chen et al., 2025) parte exatamente dessa constatação: na maioria das mulheres com mioma, o nódulo não dá sintoma e dispensa qualquer intervenção.
Esperar, portanto, costuma ser uma escolha legítima. O que transforma a espera em atraso são situações específicas, que eu descrevo adiante, e nenhuma delas é “ter mioma” ou “ter vários miomas”. Quando eu avalio uma mulher com esse diagnóstico, olho para três eixos ao mesmo tempo: a posição do nódulo dentro do útero, o que ele está provocando no corpo e na rotina, e o plano reprodutivo dela. A cirurgia entra quando esses três eixos apontam para ela, não quando o laudo apenas registra a presença de um nódulo.
Um exemplo ajuda a entender por que o tamanho sozinho engana. Um mioma de 2 cm que cresce para dentro da cavidade uterina, sangra e leva à anemia tem indicação mais clara do que um mioma de 7 cm encostado na face externa do útero, que não causa nada. A discussão sobre centímetros está detalhada em mioma grande e cirurgia.
De onde vem o mioma e por que ele às vezes não incomoda?
O mioma é um nódulo benigno de músculo liso. Tem origem em uma só célula da parede uterina e depende do estrogênio e da progesterona para crescer. Essa dependência hormonal explica o comportamento que eu observo na prática: ele aparece na fase reprodutiva, cresce devagar e costuma se estabilizar depois da menopausa, com a queda desses hormônios.
Ter mioma, por si, não é doença que exige tratamento. O nódulo passa a ser problema em três cenários. O primeiro é quando ele deforma a cavidade, o espaço onde o endométrio descama a cada ciclo, e aumenta a superfície que sangra. O segundo é quando cresce para fora e comprime bexiga ou intestino. O terceiro é quando o sangramento é volumoso o bastante para esgotar o ferro do organismo. Esse último é o mais traiçoeiro, porque a anemia se instala devagar e o cansaço acaba sendo atribuído ao trabalho, aos filhos, ao sono.
Um mioma que cresce depois da menopausa sai desse padrão e muda a forma como eu conduzo a investigação. Explico o motivo em mioma e sarcoma: qual a diferença.
Quais situações fazem eu indicar cirurgia?
Indico tratamento, cirúrgico ou não, quando encontro pelo menos uma destas situações:
- sangramento menstrual intenso que causa anemia ou atrapalha a rotina;
- sintoma de compressão, como aumento do volume da barriga, vontade frequente de urinar ou desconforto para evacuar;
- dor pélvica explicada pelo mioma, quando outras causas já foram descartadas;
- nódulo que distorce a cavidade uterina em quem tenta engravidar ou já teve perdas gestacionais;
- crescimento depois da menopausa, que exige investigação antes de qualquer decisão.
O mioma sem sintoma, mesmo quando grande, é acompanhado com exames periódicos. Essa é a conduta da SOGC 461 (2025) e do boletim ACOG 228 (2021), que segue vigente.
Para decidir a via e, muitas vezes, se há indicação, eu uso a classificação FIGO de leiomiomas, revisada por Munro, Critchley e Fraser em 2018. Cada nódulo recebe um número de 0 a 8, de acordo com o quanto avança para a cavidade ou para a superfície externa do útero. Sempre peço que a paciente saia da consulta sabendo o número de cada mioma que tem, porque é ele que orienta a conversa sobre tratamento.
| Tipo FIGO | Localização | Queixa mais comum | Caminho que costumo propor |
|---|---|---|---|
| 0 | Dentro da cavidade, preso por um pedículo | Sangramento intenso e anemia | Retirada por histeroscopia |
| 1 | Submucoso, com menos da metade dentro da parede | Sangramento intenso, falha de implantação | Retirada por histeroscopia |
| 2 | Submucoso, com metade ou mais dentro da parede | Sangramento e cavidade deformada | Histeroscopia, às vezes em dois tempos, conforme profundidade e tamanho |
| 3 | Inteiro na parede, tocando o endométrio | Sangramento e cólica | Tratamento clínico primeiro, miomectomia se o sintoma persistir |
| 4 | Inteiro na parede, sem tocar a cavidade | Peso, cólica, aumento de volume | Clínico, miomectomia, embolização ou radiofrequência, conforme o objetivo |
| 5 e 6 | Subseroso, projetado para fora | Compressão de bexiga ou intestino | Miomectomia por laparoscopia quando há sintoma |
| 7 | Subseroso pediculado | Dor aguda se o pedículo torcer | Miomectomia por laparoscopia |
| 8 | Outras localizações, como o colo | Variável, pode comprimir o colo | Individualizado, conforme o acesso |
Existe remédio que resolva sem cirurgia?
Para parte das mulheres, sim, e o cenário dos medicamentos mudou bastante. O acetato de ulipristal, que por anos foi apresentado como primeira linha, teve o uso restringido depois de casos de insuficiência hepática. A suspensão, em março de 2025, aparece registrada na revisão Cochrane daquele ano (Puscasiu et al., 41 ensaios randomizados com 3.982 mulheres). Por isso, quando vejo uma orientação que ainda coloca o ulipristal como primeira escolha, considero que ela está desatualizada.
O espaço foi ocupado pelos antagonistas orais do GnRH associados a terapia de reposição hormonal. Segundo a orientação FIGO de 2025 (Diaz, Lumsden e Zeppernick), eles são hoje os únicos medicamentos aprovados especificamente para mioma nos Estados Unidos e na Europa. Nos ensaios LIBERTY 1 e 2 (Al-Hendy et al., New England Journal of Medicine, 2021), a resposta ao relugolix combinado foi de 73% e 71%, contra 19% e 15% com placebo.
A mesma orientação FIGO lista recursos que reduzem o sangramento sem agir sobre o nódulo: anticoncepcional combinado, progestagênio oral, sistema intrauterino de levonorgestrel e ácido tranexâmico. Eu uso essas opções para controlar o sintoma, sabendo que o mioma continua lá e que o sangramento tende a voltar quando o tratamento é suspenso.
No Brasil, a FEBRASGO não tem protocolo dedicado a mioma. A referência nacional mais próxima é o Protocolo de Sangramento Uterino Anormal (Femina, 2026). O Ministério da Saúde mantém o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero, de 2017, hoje em atualização. Por isso eu ancoro as decisões na orientação FIGO de 2025, na SOGC 461, no ACOG 228 e nos documentos da AAGL.
Se a cirurgia for o caminho, qual técnica faz sentido?
A técnica segue o tipo FIGO. Os miomas submucosos saem por histeroscopia: o instrumento óptico passa pelo canal do colo e o nódulo é removido pelo lado de dentro, sem nenhuma incisão na barriga. Para os intramurais e os subserosos, a via é a videolaparoscopia, feita por cortes de poucos milímetros. Deixo a cirurgia aberta, a laparotomia, para os úteros muito volumosos.
Retirar o útero é uma das opções que eu discuto, nunca o desfecho obrigatório de quem tem mioma. As alternativas que preservam o órgão estão em mioma: como preservar o útero.
Antes da operação, o análogo de GnRH tem papel definido e limites claros. Segundo a Cochrane de 2025, ele diminui o volume do útero e eleva a hemoglobina antes da cirurgia, ao custo de mais fogachos e outros efeitos adversos; na histerectomia, encurta o tempo operatório em cerca de 10 minutos. Na miomectomia, o benefício é incerto.
Em toda miomectomia existe a possibilidade de, durante o procedimento, ser necessário converter para histerectomia. É um risco previsto, que eu explico e que entra no termo de consentimento antes da cirurgia.
Quanto tempo leva para voltar à rotina?
O prazo depende mais da via escolhida do que do tamanho do nódulo. Depois da histeroscopia, a volta às atividades costuma ser rápida, porque não há incisão na parede abdominal. Depois da laparoscopia, oriento algumas semanas sem esforço físico, e depois da laparotomia o período é mais longo.
Na ablação por radiofrequência, a maioria dos 30 estudos reunidos pela revisão sistemática da AAGL de 2025 (Chen et al.) relata volta ao trabalho e à rotina em até duas semanas; o volume do mioma caiu 46,0% em 3 meses e 65,4% em 12 meses.
Os riscos eu apresento antes, nunca depois: sangramento que pode exigir transfusão, infecção, lesão de órgão vizinho, aderências e recidiva. O resultado esperado varia com o tipo do mioma, a via de acesso e a idade, e eu só consigo estimá-lo com o exame de imagem de cada mulher em mãos.
Se o plano inclui gestação, o intervalo até começar a tentar e o tipo de parto entram na mesma conversa. Detalho esse tema em gravidez após miomectomia.
O que levar para a consulta
Para que a primeira conversa já resolva a maior parte das dúvidas, peço que tragam:
- ultrassom transvaginal recente, com o laudo completo e não só a conclusão;
- ressonância de pelve, se já tiver feito;
- hemograma e ferritina dos últimos meses;
- lista de medicamentos em uso, inclusive anticoncepcional e anti-inflamatório;
- anotação de três ciclos, com dias de sangramento, absorventes por dia e presença de coágulos;
- o objetivo pessoal: engravidar, parar de sangrar, aliviar o peso ou evitar a cirurgia.
Perguntas frequentes
Mioma sem sintoma precisa ser operado? Em geral, não. A SOGC 461 (2025) e o ACOG 228 (2021) orientam acompanhar. As exceções que eu avalio caso a caso são o crescimento depois da menopausa e a distorção da cavidade em quem investiga infertilidade.
Posso adiar a cirurgia se o mioma sangra muito? Pode haver espaço para tratamento clínico, mas a anemia precisa ser acompanhada com hemograma e ferritina. Adiar sem controlar o sangramento não é uma espera segura.
Tenho vários miomas. Todos precisam sair? Nem sempre. Tiro os nódulos responsáveis pelo sintoma e aqueles que deformam a cavidade. Um nódulo pequeno que não causa nada pode ficar, se tirá-lo obrigaria a abrir mais o útero.
O remédio faz o mioma sumir? Os medicamentos reduzem o sangramento e, alguns, o volume, enquanto estão em uso. O nódulo não desaparece, e o sintoma pode voltar ao suspender.
Mioma diminui na menopausa? Costuma estabilizar ou reduzir. O que cresce depois da menopausa é investigado com atenção.
Depois da cirurgia o mioma pode voltar? A cirurgia remove os nódulos presentes hoje, mas não evita que outros se formem no futuro.
Se quiser conversar
Cada mioma tem um número na classificação, uma relação diferente com o sintoma e um peso diferente no seu plano de vida. Se quiser entender o que isso significa no seu exame, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477 e a gente marca uma conversa.
Referências
- Chen I, Kives S, Randle E, Rattray D, Sanders A, Vilos G. Guideline No. 461: The Management of Uterine Fibroids. J Obstet Gynaecol Can. 2025;47(8):102970. DOI 10.1016/j.jogc.2025.102970
- Diaz I, Lumsden MA, Zeppernick M. Medical treatment of fibroids: FIGO best practice guidance. Int J Gynaecol Obstet. 2025;171(2):507-512. DOI 10.1002/ijgo.70497
- Munro MG, Critchley HOD, Fraser IS. The two FIGO systems for normal and abnormal uterine bleeding symptoms and classification of causes of abnormal uterine bleeding in the reproductive years: 2018 revisions. Int J Gynaecol Obstet. 2018;143(3):393-408. DOI 10.1002/ijgo.12666
- American College of Obstetricians and Gynecologists. Management of Symptomatic Uterine Leiomyomas: ACOG Practice Bulletin, Number 228. Obstet Gynecol. 2021;137(6):e100-e115. DOI 10.1097/AOG.0000000000004401
- Al-Hendy A, Lukes AS, Poindexter AN 3rd, et al. Treatment of Uterine Fibroid Symptoms with Relugolix Combination Therapy. N Engl J Med. 2021;384(7):630-642. DOI 10.1056/NEJMoa2008283
- Puscasiu L, Vollenhoven B, Nagels HE, Melinte IM, Showell MG, Lethaby A. Preoperative medical therapy before surgery for uterine fibroids. Cochrane Database Syst Rev. 2025;4:CD000547. DOI 10.1002/14651858.CD000547.pub3
- Chen I, Berman JM, Balk EM, et al. Radiofrequency Ablation for the Treatment of Uterine Fibroids: A Systematic Review and Meta-Analysis by the AAGL Practice Committee. J Minim Invasive Gynecol. 2025;32(1):74-91. DOI 10.1016/j.jmig.2024.09.011
- Protocolo FEBRASGO. Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-235. DOI 10.61622/0100-7254543202609
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Leiomioma de Útero. Portaria Conjunta nº 11, de 31 de outubro de 2017. gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/l/leiomioma-de-utero

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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