Preciso fazer todos os exames?
Não necessariamente. Antes de uma cirurgia ginecológica, eu escolho cada exame por um motivo: o tamanho da cirurgia, a sua idade, as doenças que você já tem e os remédios que toma. Uma mulher saudável que vai fazer um procedimento pequeno costuma precisar de muito pouco.
Muita gente chega à consulta com uma lista longa e pergunta se tudo aquilo é mesmo necessário. A pergunta é justa. Ninguém quer tirar sangue à toa. Há alguns anos, a medicina deixou de pedir a mesma bateria de exames para todo mundo e passou a pedir conforme o risco de cada pessoa.
O que costuma entrar
| Exame | Quando eu peço |
|---|---|
| Hemograma | Sangramento forte, mioma grande ou cirurgia maior |
| Exame de coagulação | Uso de anticoagulante ou sangramento fácil |
| Açúcar no sangue e rins | Diabetes, pressão alta ou idade mais avançada |
| Eletrocardiograma | Doença do coração ou sintoma ao esforço |
| Teste de gravidez | Mulher que ainda pode engravidar, combinado com você |
| Exame de urina | Sintoma urinário ou cirurgia para perda de urina ou prolapso |
| Ferro no sangue | Anemia ou sangramento de longa data |
| Imagem recente com laudo | Quase todas as cirurgias |
A imagem, como ultrassom ou ressonância, é o item que vale para quase todo mundo. É ela que mostra o que vou operar e por onde.
Por que exame demais atrapalha
Exame sem motivo costuma achar pequenas alterações que não significam nada. Cada uma puxa outro exame, outra consulta e, às vezes, adia a cirurgia. Em cirurgias de baixo risco, quem fez todos os exames não teve menos complicações do que quem fez só os necessários.
E tem um outro lado. Exame normal pode dar uma falsa sensação de segurança. Um hemograma normal não diz nada sobre o coração. O que mais protege antes da cirurgia é uma boa conversa e um bom exame físico.
A histeroscopia feita no consultório, sem anestesia geral, é um bom exemplo: ela não pede bateria de exames antes.
Quando o coração entra na conversa
Eu olho duas coisas: o risco da cirurgia e o seu fôlego no dia a dia. Se você sobe escadas sem falta de ar nem dor no peito, raramente precisa de exame extra do coração. Se tem doença cardíaca, usa stent ou anticoagulante, ou sentiu algo novo ao fazer esforço, eu chamo o cardiologista antes de marcar a data.
Jejum e remédios
Você vai conversar com o anestesista antes da cirurgia. É ele quem define a anestesia, o que suspender e o que tomar na manhã do procedimento.
O jejum hoje é mais leve do que muita gente pensa. Líquidos claros, como água, costumam ser liberados até duas horas antes, para quem não tem fator de risco. Para comida, o prazo é maior.
Traga a lista de todos os remédios, inclusive anticoncepcional, suplemento e o que você toma por conta própria. Não pare nada sozinha: parar sem orientação pode ser pior do que continuar.
O que levar para a consulta
- Exames de imagem com laudo e data
- Exames de sangue dos últimos seis meses
- Lista de remédios com dose
- Relatório de cirurgias anteriores
- Anotação do que você sente e desde quando
Se já fez cirurgia antes, conte que anestesia recebeu e se teve alguma reação.
Perguntas frequentes
Posso operar menstruada? Na maioria das cirurgias, sim. Na histeroscopia, prefiro marcar logo depois que a menstruação acaba, porque a visão de dentro do útero fica melhor.
Tenho que parar o anticoncepcional? Depende do tipo, da cirurgia e do seu risco de trombose. Isso se decide na consulta, nunca por conta própria.
Meus exames de seis meses atrás servem? Os de sangue costumam servir se nada mudou. A imagem precisa ser recente, porque mioma, pólipo e cisto mudam de tamanho.
Tenho anemia. A cirurgia atrasa? Costuma valer a pena tratar antes com ferro e operar com mais reserva de sangue.
Se a sua lista de exames deixou dúvida, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477 e a gente olha junto.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
Existe uma lista padrão de exames?
Não. No pré-operatório de cirurgia ginecológica, eu escolho cada exame por um motivo: o porte da cirurgia, a sua idade, as doenças que você já tem e os remédios que usa. Uma mulher saudável que vai fazer um procedimento pequeno costuma precisar de muito pouco, às vezes só do que a anestesia pedir. Quem tem hipertensão, diabetes, anemia ou doença cardíaca faz uma avaliação mais detalhada, e eu prefiro começar essa avaliação antes de marcar a data.
Essa pergunta aparece no consultório quase sempre com a lista na mão e um certo cansaço: “tudo isso, doutor?”. É uma dúvida justa. Ninguém quer coletar sangue sem necessidade nem perder dias em laboratório.
A lógica de pedir exame pelo risco, e não por hábito, tem nome e data. A diretriz NG45 do NICE, publicada em 2016 e sem atualização registrada desde então, retirou de cena o exame pré-operatório de rotina para todas as pessoas e colocou no lugar o exame indicado conforme o risco. É esse raciocínio que eu sigo.
Que exame eu peço, e em que situação?
| Exame | Em que situação eu peço | O que ele responde |
|---|---|---|
| Hemograma | Sangramento uterino anormal, mioma volumoso, cirurgia de médio ou grande porte | Se há anemia a corrigir antes da cirurgia |
| Coagulograma | Uso de anticoagulante, sangramento fácil, história familiar | Como planejar a hemostasia |
| Glicemia e função renal | Diabetes, hipertensão, uso de diurético, idade mais avançada | Ajustes de anestesia e de medicação |
| Eletrocardiograma | Doença cardíaca conhecida, sintoma cardíaco, risco pela idade e pela cirurgia | Avaliação cardiovascular perioperatória |
| Radiografia de tórax | Doença pulmonar relevante ou sintoma respiratório | Não entra como rotina em mulher saudável |
| Beta-HCG | Mulher em idade fértil, em decisão compartilhada | Afastar gravidez antes de operar |
| Urina tipo 1 e urocultura | Sintoma urinário ou cirurgia uroginecológica | Tratar infecção antes da cirurgia |
| Ferritina e ferro sérico | Anemia confirmada ou sangramento crônico | Repor ferro antes da cirurgia |
| Imagem recente com laudo | Praticamente toda indicação cirúrgica | Confirmar o achado e planejar a via |
O último item é o único que vale para quase todo mundo. A imagem é o que sustenta a indicação e define por onde eu vou operar.
Três linhas da tabela merecem uma explicação a mais, porque são as que mais geram dúvida.
Hemograma e ferro. Mioma volumoso e sangramento uterino anormal de longa data podem levar à anemia. Eu prefiro descobrir isso semanas antes, quando ainda dá tempo de repor ferro, do que no dia da internação. Operar com reserva melhor muda o pós-operatório inteiro.
Beta-HCG. Em mulher em idade fértil, o teste de gravidez entra por decisão compartilhada. Eu explico por que ele é pedido, e a decisão é tomada junto com a paciente.
Urina. Infecção urinária ativa é motivo de adiamento, porque aumenta o risco no pós-operatório. Na cirurgia uroginecológica, o exame é regra. Nas demais, ele entra quando há sintoma.
O que fica de fora também diz muito. A radiografia de tórax, por exemplo, não é rotina em mulher saudável. Ela entra quando há doença pulmonar relevante ou sintoma respiratório.
Pedir exame a mais tem algum problema?
Tem. Parece prudente pedir tudo, mas exame sem indicação costuma achar pequenas alterações sem significado clínico. Cada uma gera outro exame, outra consulta e, às vezes, o adiamento da cirurgia. O custo é tempo e ansiedade.
A evidência mais clara sobre isso vem de outra especialidade. A revisão Cochrane de Keay e colaboradores, de 2019, avaliou exames de rotina antes da cirurgia de catarata e não encontrou menos eventos adversos em quem fez a bateria completa, comparado a quem fez avaliação dirigida. Catarata não é cirurgia ginecológica, e eu faço questão de dizer isso. Mas o princípio se aplica: em procedimento de baixo risco, exame sem pergunta clínica não protege.
Existe também o efeito contrário, menos comentado. Um exame pedido sem critério pode dar uma falsa sensação de segurança. Hemograma normal não afasta doença cardíaca, e eletrocardiograma normal não substitui a conversa sobre o esforço que você consegue fazer no dia a dia. A história clínica bem colhida e o exame físico continuam sendo o que mais protege antes de uma cirurgia.
O exemplo mais claro na ginecologia é a histeroscopia de consultório. O Green-top nº 59 do RCOG, de 2024, com primeira autora De Silva PM, descreve esse procedimento ambulatorial sem anestesia geral, e ele não exige bateria de exames pré-operatórios.
Quando o coração precisa ser avaliado?
A diretriz de manejo cardiovascular perioperatório da AHA e do ACC, de 2024, com primeira autora Thompson A, organiza essa decisão em duas perguntas: qual é o risco da cirurgia e qual é a capacidade funcional da paciente. A cirurgia ginecológica eletiva costuma ter risco baixo ou intermediário. Se você sobe escadas sem falta de ar nem dor no peito, a chance de precisar de um exame do coração além dos habituais é pequena.
O cenário muda quando há doença cardíaca conhecida, sintoma novo ao esforço, uso de stent ou de anticoagulante. Nesses casos, eu envolvo o cardiologista antes de marcar a cirurgia. Adiar duas semanas, nessa situação, pode evitar um problema sério.
Consulta com o anestesista, jejum e remédios
A consulta pré-anestésica faz parte do preparo. É nela que se define a técnica anestésica, o que suspender e o que tomar na manhã da cirurgia.
O jejum hoje é menos rígido do que muita gente imagina. As diretrizes de jejum pré-operatório da Sociedade Americana de Anestesiologistas, de 2023, com primeiro autor Joshi GP, liberam água e outros líquidos claros até duas horas antes da cirurgia, desde que a paciente não tenha um fator de risco específico. O alimento sólido tem prazo maior, definido pelo anestesista.
No Brasil, o Posicionamento FEBRASGO nº 2/2022, com primeira autora Santiago AE, levou esse raciocínio para a ginecologia dentro do programa ERAS: jejum mais curto, analgesia que poupa o opioide e a paciente de pé ainda no dia da operação. O texto está publicado em português na revista Femina, o que facilita ler a fonte inteira.
Na prática, isso significa que a paciente não precisa passar a noite inteira sem beber nada por precaução. O que vale é a orientação dada na consulta pré-anestésica para o seu caso, com o horário escrito. Se houver dúvida na véspera, é melhor perguntar do que adivinhar.
Sobre anticoncepcional, anticoagulante, anti-inflamatório e suplemento, peço que você traga a lista completa, inclusive o que toma por conta própria. A suspensão é individual. Parar um remédio sem orientação pode ser pior do que mantê-lo.
O que separar para a consulta antes da cirurgia
Antes da consulta pré-operatória, vale reunir:
- exames de imagem com laudo e data, de preferência com o disco ou o link das imagens;
- exames de laboratório dos últimos seis meses;
- a lista de remédios com dose, incluindo hormônio, suplemento e fitoterápico;
- o relatório de cirurgias anteriores, com a descrição do que foi feito;
- uma anotação do que você sente, desde quando e o que já tentou;
- as doenças em acompanhamento e o nome do médico que cuida de cada uma.
Se você já foi operada antes, anote também o tipo de anestesia e qualquer reação que teve. Essa informação muda o planejamento anestésico mais do que qualquer exame de rotina.
Para a imagem, o formato importa. O papel do laudo resume o que foi visto; o disco ou o link permite que eu e o anestesista olhemos o achado com a pergunta de cada um. Leve os dois sempre que puder. E, se algum exame foi feito em outro laboratório, traga o resultado original, e não só uma foto no celular.
Confira também a data do último preventivo. O prazo de rastreamento no Brasil é definido pelo Ministério da Saúde, por meio do INCA, cujas diretrizes mais recentes, de 2025, tratam do rastreamento organizado com teste molecular de DNA-HPV oncogênico.
O plano cobre esses exames?
Exames pré-operatórios indicados constam no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costumam ter cobertura pelos planos de saúde. A autorização depende de cada contrato. O caminho da autorização cirúrgica está em Quanto tempo o plano leva para autorizar a minha cirurgia.
Perguntas frequentes
Posso operar menstruada? Na maioria das cirurgias, sim. Na histeroscopia a data importa, porque o endométrio mais fino melhora a visão da cavidade, e por isso costumo programar logo depois do fim da menstruação.
Tenho que parar o anticoncepcional? A resposta muda conforme o hormônio que você usa, o tamanho da cirurgia e o seu risco de formar trombose. Quem decide é a consulta pré-operatória; não suspenda sozinha.
Posso beber água antes da cirurgia? Pode, até duas horas antes, se você não tiver um fator de risco específico; o mesmo vale para outros líquidos claros. Comida tem um prazo mais longo, que o anestesista informa.
Exames de seis meses atrás ainda servem? Os de laboratório costumam ser aceitos por alguns meses se nada mudou na sua saúde. A imagem que sustenta a indicação precisa ser recente, porque mioma, pólipo e cisto mudam de tamanho.
Por que pediram exame de urina se a cirurgia não é na bexiga? Infecção urinária ativa adia a cirurgia, porque aumenta o risco no pós-operatório. Na cirurgia uroginecológica, o exame é regra.
Tenho anemia. Vou ter que esperar? Geralmente vale tratar antes, com ferro, e operar com reserva melhor. Em sangramento crônico, isso muda todo o pós-operatório.
Preciso refazer o preventivo? Não, a menos que o último esteja vencido pelo prazo de rastreamento ou que algum sintoma justifique examinar o colo do útero.
Se a sua lista de exames gerou dúvida, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477 e a gente revisa juntos o que o seu caso realmente pede.
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Routine preoperative tests for elective surgery. NICE Guideline NG45. Publicada em 05/04/2016. nice.org.uk/guidance/ng45
- Thompson A, et al. 2024 AHA/ACC/ACS/ASNC/HRS/SCA/SCCT/SCMR/SVM Guideline for Perioperative Cardiovascular Management for Noncardiac Surgery. Circulation. 2024. DOI 10.1161/CIR.0000000000001285
- Joshi GP, et al. 2023 American Society of Anesthesiologists Practice Guidelines for Preoperative Fasting. Anesthesiology. 2023. DOI 10.1097/ALN.0000000000004381
- Santiago AE, et al. Perioperative management in gynecological surgery based on the ERAS program. FEBRASGO Position Statement nº 2/2022. Rev Bras Ginecol Obstet / Femina. 2022. DOI 10.1055/s-0042-1743401. Versão em português: Manejo perioperatório em cirurgia ginecológica baseado no programa ERAS. Femina. 2022;50(2):112-120. DOI 10.61622/0100-7254502202206
- Keay L, Lindsley K, Tielsch J, Katz J, Schein O. Routine preoperative medical testing for cataract surgery. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2019. DOI 10.1002/14651858.CD007293.pub4
- De Silva PM, et al. Outpatient Hysteroscopy. RCOG Green-top Guideline No. 59. BJOG. 2024. DOI 10.1111/1471-0528.17907
- Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero: volume 1, rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. Rio de Janeiro: INCA, 2025. ninho.inca.gov.br

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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