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Ristow Ginecologia e Obstetrícia · Dr. José Ricardo Ristow
Endometriose

Ultrassom normal e dor que não passa: como eu diagnostico endometriose sem cirurgia

Dá para diagnosticar endometriose sem cirurgia, com conversa, exame físico e imagem. Explico de forma simples que exame pedir e por que o laudo pode vir normal.

Dr. José Ricardo W. Ristow

Escrito e revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593

Publicado em
Revisado em · 12 min de leitura

Preciso operar para saber se tenho endometriose?

Não. Hoje é possível diagnosticar endometriose sem cirurgia, juntando três coisas: a sua história, o exame físico e um exame de imagem bem feito. Com sintomas que combinam e uma imagem que sugere a doença, o tratamento já pode começar.

Se alguém disse a você que só a cirurgia confirma, não estava inventando. Por muitos anos foi assim. As principais orientações médicas do mundo, e também as brasileiras, mudaram essa regra há pouco tempo. A cirurgia passou a ser tratamento, e não exame.

Por que meu ultrassom veio normal?

Isso acontece muito. Muitas vezes, o exame foi um ultrassom comum pela via vaginal, sem preparo do intestino e sem uma busca dirigida. Esse exame enxerga bem o cisto de endometriose no ovário, mas costuma não ver a doença que está mais funda, nos ligamentos, entre a vagina e o reto ou na parede do intestino.

Existe também a endometriose superficial, que fica na película que reveste a pelve. Essa forma ainda escapa da maioria dos exames de imagem.

Por que a cirurgia deixou de ser o exame principal?

Exigir cirurgia para confirmar significava anestesia e internação antes de qualquer tratamento, e isso atrasava o cuidado. Os estudos mostram atrasos que vão de alguns meses a doze anos até o diagnóstico, e boa parte desse atraso vem dos próprios serviços de saúde.

Além disso, a cirurgia também falha: lesões pequenas podem passar despercebidas, e uma biópsia negativa não descarta a doença. E a imagem melhorou muito.

Qual exame serve para quê?

Exame O que mostra Limite
Conversa e exame físico Levanta a suspeita e orienta o resto Não mostra onde está a lesão
Ultrassom vaginal comum Cisto de endometriose no ovário Não basta para a doença profunda
Ultrassom com preparo do intestino Doença no reto, ligamentos, bexiga e ureter Depende muito de quem faz
Ressonância da pelve Mapa da pelve para planejar cirurgia Não vê bem a forma superficial
Exame de sangue ou saliva Nada confirmado até agora Vendido antes de ser validado

Os dois exames principais se completam. O ultrassom com preparo, feito por quem tem treino, encontra a doença no ureter em cerca de 97 de cada 100 casos em que ela existe, contra cerca de 87 da ressonância. Já entre a vagina e o reto, a ressonância acerta bem mais. Por isso, muitas vezes peço os dois.

Como é o ultrassom com preparo?

É um ultrassom pela via vaginal com duas diferenças. Na véspera e na manhã do exame, você faz um preparo com laxante ou lavagem, conforme a orientação do serviço, para esvaziar o intestino. E o exame demora mais, porque quem examina percorre a pelve por partes.

É feito acordada, sem anestesia, e o desconforto é parecido com o de um ultrassom comum. Você volta à rotina no mesmo dia. O que mais pesa é a véspera, por causa do preparo.

O resultado depende muito de quem faz. Quando encaminho, peço alguém com treino específico em endometriose.

E se o exame confirmar?

O tratamento pode começar sem cirurgia. Se a conversa chegar à operação, a recuperação depende do tamanho do que for feito: alta no mesmo dia na doença superficial, um a dois dias de internação na profunda sem intestino, e cerca de cinco dias quando o intestino é tratado.

Perguntas frequentes

Ressonância normal descarta endometriose? Não. Ela vê bem a doença profunda e o cisto do ovário, mas não a forma superficial.

Para que serve o preparo do intestino? Esvazia o intestino para que a parede dele e os órgãos ao redor possam ser examinados.

Existe exame de sangue para endometriose? Não existe nenhum confiável até hoje.

Por que demorou tanto para descobrirem a minha? Cólica tratada como normal e ultrassom sem preparo explicam boa parte desse tempo.

Biópsia negativa quer dizer que não tenho? Não. Um resultado negativo não descarta a doença.

Se você tem dor e uma pasta cheia de exames normais, me mande uma mensagem no WhatsApp (11) 93371-4477 e vemos juntos o que falta investigar.

Quer o detalhe? O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes.
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Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.

Preciso ser operada para ter certeza?

Não. Hoje eu diagnostico endometriose sem cirurgia, reunindo três peças: a história que a mulher me conta, o exame físico e um exame de imagem bem feito. Até poucos anos atrás, a recomendação era outra, e muita gente ainda ouve que “só a videolaparoscopia confirma”. Quem disse isso não estava inventando. A regra mudou, e mudou com data marcada.

Em 2022, a ESHRE publicou sua diretriz de endometriose (Becker e colaboradores, Human Reproduction Open, com 109 recomendações). Ela retirou a laparoscopia do posto de padrão-ouro diagnóstico, recomendou apoiar o diagnóstico em história clínica, exame físico e imagem, e registrou que uma laparoscopia sem achados não exclui a doença.

Depois vieram as outras. A NICE atualizou sua diretriz britânica em 11 de novembro de 2024 na mesma linha. O ACOG publicou em 2026 a Clinical Practice Guideline nº 11, dedicada à avaliação e ao diagnóstico. No Brasil, o Protocolo FEBRASGO de Endometriose, de 2025, acompanha essa leitura. E o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde, aprovado pela Portaria Conjunta nº 54, de 2 de junho de 2026, levou a virada para o SUS: orienta considerar o diagnóstico pela história e pelo exame, admite iniciar tratamento sem confirmação cirúrgica, afirma que imagem normal não exclui a doença e diz que o uso do CA-125 deve ser abandonado.

O efeito prático é direto. Com sintomas compatíveis e imagem sugestiva, o tratamento pode começar. A cirurgia volta a ser tratamento, e deixa de ser exame.

Por que o meu ultrassom veio normal?

Essa é uma situação frequente no consultório. A mulher tem cólica que incapacita, dor na relação, às vezes dor para evacuar na menstruação, e um ou dois ultrassons “normais” na pasta.

Muitas vezes, o exame foi um ultrassom transvaginal comum, sem preparo do intestino e sem uma busca dirigida pela doença profunda. Esse exame enxerga bem o endometrioma, o cisto de endometriose no ovário, mas costuma passar em branco quando a doença está nos ligamentos, no septo retovaginal ou na parede do intestino. O laudo normal, nesse caso, diz mais sobre a pergunta que foi feita ao exame do que sobre a pelve da paciente.

Há ainda uma limitação que nenhum exame de imagem resolve por completo: a endometriose superficial. A revisão de Avery e colaboradores, de 2024, é clara ao dizer que a avaliação dessa forma da doença pelo ultrassom ainda está em fase inicial.

Por que a cirurgia deixou de ser o exame de referência?

Vejo três motivos, e nenhum deles é modismo.

O primeiro é o tempo perdido. Exigir laparoscopia para confirmar a doença significava exigir anestesia geral e internação antes de qualquer tratamento, e isso adiava o cuidado. A revisão sistemática de De Corte e colaboradores, publicada no BJOG em 2025, reuniu 17 estudos observacionais e encontrou tempos até o diagnóstico entre 0,3 e 12 anos, conforme o país e a definição usada. Os autores apontaram que esse atraso é conduzido principalmente pelos profissionais de saúde.

O segundo é o limite do próprio olhar cirúrgico. Lesão superficial pode passar despercebida a olho nu, e biópsia negativa não exclui a doença. Uma laparoscopia normal deixava a mulher com a dor e sem diagnóstico.

O terceiro é o avanço da imagem. O ultrassom transvaginal com preparo intestinal, feito por profissional treinado, e a ressonância magnética passaram a identificar endometrioma e doença profunda com acurácia documentada. O consenso da ESUR de 2025 (Thomassin-Naggara e colaboradores) padronizou protocolo, vocabulário e laudo da ressonância, o que torna os resultados comparáveis entre serviços.

O que cada exame consegue mostrar?

Exame Papel principal Desempenho descrito Ponto fraco
Conversa e exame físico Levantar a suspeita e orientar o pedido de imagem Base do diagnóstico clínico nas diretrizes de 2022, 2024 e 2026 Não mostra onde está a lesão
Ultrassom transvaginal comum Identificar endometrioma no ovário Bom para cisto ovariano Insuficiente para doença profunda
Ultrassom transvaginal com preparo intestinal Mapear reto, ligamentos, bexiga e ureter Sensibilidade de 97% para ureter e 72% para bexiga, especificidade de 99% e 100% (Tian et al., 2022) Muito dependente de quem faz
Ressonância magnética da pelve Mapear compartimentos e planejar cirurgia Sensibilidade de 87% para ureter e 68% para bexiga (Tian et al., 2022); 0,74 no septo retovaginal, contra 0,51 do ultrassom (Lou et al., 2024) Pouco confiável para lesão superficial
Laparoscopia Tratar e, quando preciso, biopsiar Deixou de ser padrão-ouro diagnóstico (ESHRE, 2022) Resultado normal não exclui a doença
Marcadores no sangue ou na saliva Sem papel definido fora de pesquisa Validação insuficiente para uso clínico Vendidos antes de validados

Ultrassom com preparo ou ressonância: qual eu peço?

Muitas vezes, os dois. A tabela mostra que eles se complementam. Pela metanálise de Tian e colaboradores, o ultrassom com preparo intestinal, em mãos treinadas, chega perto da ressonância e a supera para o ureter. Pela metanálise de Lou e colaboradores, no septo retovaginal o cenário se inverte: a ressonância teve sensibilidade de 0,74, contra 0,51 do ultrassom, diferença estatisticamente significativa.

Na prática, peço o ultrassom com preparo como exame de mapeamento e uso a ressonância quando preciso detalhar um compartimento específico ou planejar uma cirurgia. Em qualquer dos casos, escrevo no pedido que a suspeita é de endometriose profunda e indico o protocolo. Isso muda o exame que será feito.

Como é o ultrassom com preparo intestinal?

É um ultrassom transvaginal com dois acréscimos. O primeiro é o preparo do intestino, na véspera e na manhã do exame, com laxante ou enema, conforme a orientação do serviço. Ele esvazia o reto e permite avaliar a parede intestinal. O segundo é o tempo: o exame é mais longo, porque o examinador percorre a pelve compartimento por compartimento, procurando nódulos, aderências e a mobilidade dos órgãos.

Você fica acordada, sem anestesia, e o incômodo lembra o do ultrassom transvaginal de rotina. Não há recuperação: você volta à rotina no mesmo dia. O que pesa é a véspera, por causa do preparo.

O fator que mais influencia o resultado é quem faz o exame. Por isso, quando encaminho, peço um profissional com treino específico em endometriose.

E os exames de sangue?

Nenhum marcador de sangue ou de saliva tem validação suficiente para diagnosticar endometriose fora do ambiente de pesquisa. O Ministério da Saúde, no protocolo de 2026, recomenda abandonar o CA-125 para esse fim. Quem vende teste com essa promessa está oferecendo algo que a ciência ainda não comprovou.

Se a imagem confirmar, o que acontece?

O diagnóstico clínico com imagem já permite começar o tratamento. Se a conversa avançar para cirurgia, a recuperação depende da extensão do que for feito, e detalho os prazos em pós-operatório de endometriose. A decisão entre remédio e operação está em endometriose: remédio ou cirurgia.

O que trazer para a consulta

  • Todos os ultrassons e ressonâncias que já fez, com as imagens, não só os laudos
  • Um registro de três ciclos: quando dói, quanto dói, o que a dor impede
  • Se há dor na relação, para evacuar ou para urinar, e se piora na menstruação
  • Hormônios e analgésicos já usados, com dose e tempo
  • Histórico de endometriose na família
  • Seu plano de gravidez e em qual prazo

Peço as imagens, e não só os laudos, porque muitas vezes consigo reavaliar o que foi registrado e entender se o exame procurou a doença profunda ou apenas descartou outras causas.

O que perguntar a quem está conduzindo a investigação

  • Meu ultrassom foi feito com preparo intestinal e com mapeamento dirigido?
  • O profissional que fez meu exame é treinado para procurar endometriose?
  • Meus sintomas e a imagem já permitem começar o tratamento sem cirurgia?
  • Se a imagem está normal e a dor continua, qual é o próximo passo?
  • No meu caso, vale somar a ressonância ao ultrassom? Por quê?
  • O que faria a cirurgia passar a ser uma opção para mim?

Perguntas frequentes

Ressonância normal exclui endometriose? Não. A ressonância mapeia bem doença profunda e endometrioma, mas não identifica lesão superficial de forma confiável. Sintoma que persiste com exame normal pede reavaliação.

Para que serve o preparo intestinal? Esvazia o reto e permite examinar a parede do intestino, os ligamentos e a mobilidade dos órgãos. Sem ele, o exame costuma vir normal mesmo com doença profunda.

Qual exame enxerga a endometriose profunda? O ultrassom transvaginal com preparo intestinal, feito por profissional treinado, e a ressonância da pelve. Eles se completam: o ultrassom foi superior para o ureter na metanálise de Tian e colaboradores, e a ressonância foi superior no septo retovaginal na de Lou e colaboradores.

Existe exame de sangue que confirme? Não. Nenhum marcador tem validação suficiente, e o protocolo do Ministério da Saúde de 2026 orienta abandonar o CA-125 para esse fim.

Por que levei tantos anos para ter o diagnóstico? A revisão de De Corte e colaboradores, de 2025, encontrou atrasos entre 0,3 e 12 anos, conduzidos principalmente pelos profissionais de saúde. Cólica tratada como normal e ultrassom sem preparo explicam boa parte desse tempo.

Biópsia negativa significa que não tenho endometriose? Não. Histologia negativa não exclui a doença, e esse é um dos motivos pelos quais a laparoscopia perdeu o posto de padrão-ouro.

Posso começar o tratamento sem operar? Sim, quando os sintomas e a imagem são compatíveis. É o que recomendam a ESHRE, a NICE, o ACOG e o protocolo brasileiro.

Se você tem dor e uma pasta de exames normais, posso ajudar a entender o que falta investigar. É só me chamar no WhatsApp (11) 93371-4477.

Referências

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. DOI 10.1093/hropen/hoac009
  2. American College of Obstetricians and Gynecologists. ACOG Clinical Practice Guideline No. 11: Evaluation and Diagnosis of Endometriosis. Obstet Gynecol. 2026;147(3):432-448. DOI 10.1097/AOG.0000000000006181
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Endometriosis: diagnosis and management. London: NICE; 11 nov 2024. PMID 38815122
  4. Tian Z, Zhang YC, Sun XH, Wang Y, Zhao Y, Chang XH, Zhu HL. Accuracy of transvaginal ultrasound and magnetic resonance imaging for diagnosis of deep endometriosis in bladder and ureter: a meta-analysis. J Obstet Gynaecol. 2022;42(6):2272-2281. PMID 35421318
  5. Lou Y, Li D, Yu J, Chen J, Jin X. Diagnostic performance of transvaginal sonography vs. magnetic resonance imaging for rectovaginal septum deep infiltrating endometriosis: a head-to-head comparative meta-analysis. Clin Radiol. 2024;79(8):618-627. PMID 38797608
  6. Avery JC, et al. Noninvasive diagnostic imaging for endometriosis part 1: a systematic review of recent developments in ultrasound, combination imaging, and artificial intelligence. Fertil Steril. 2024;121(2):164-188. PMID 38101562
  7. Thomassin-Naggara I, et al. ESUR consensus MRI for endometriosis: protocol, lexicon, and compartment-based analysis. Eur Radiol. 2025;35(11):7272-7286. PMID 40425755
  8. De Corte P, Klinghardt M, von Stockum S, Heinemann K. Time to Diagnose Endometriosis: Current Status, Challenges and Regional Characteristics, A Systematic Literature Review. BJOG. 2025;132(2):118-130. PMID 39373298
  9. Protocolo FEBRASGO de Endometriose. Femina. 2025;53(6):853-858. DOI 10.61622/0100-7254536202511
  10. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026. Brasília: Ministério da Saúde; 2026. gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/e/endometriose
Dr. José Ricardo W. Ristow, ginecologista

Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico

Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.

Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.

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