Se o ultrassom está normal, por que ainda dói?
Dor pélvica com ultrassom normal acontece porque existem tipos de dor que nenhuma imagem consegue mostrar. O exame normal quer dizer que ele não encontrou uma lesão. Não quer dizer que a sua dor não exista.
Ouvir “você não tem nada” e continuar sentindo a mesma dor é desanimador. Esse quadro é conhecido, tem nome, dor pélvica crônica, e já foi estudado em centenas de mulheres na mesma situação. Nem sempre se chega a um diagnóstico único, e eu não prometo que a dor vá sumir. Mas existe muito o que fazer.
De onde vem uma dor que não aparece no exame?
A dor pode nascer de três lugares, e eles costumam se misturar:
- De uma lesão, como um foco de endometriose, um cisto ou uma aderência. É o que o ultrassom costuma encontrar.
- De um nervo apertado ou machucado, que nem sempre aparece na imagem.
- Do próprio sistema nervoso. O corpo tem um freio natural para a dor, e esse freio pode ficar fraco. Aí, uma pressão que antes não incomodava passa a doer, e a dor continua mesmo depois que a causa inicial sumiu. O que mudou foi o jeito de o corpo processar o sinal, e não os órgãos.
Estudos de genética mostram que endometriose, enxaqueca, dor nas costas e intestino irritável têm uma base em comum. Ter várias dores ao mesmo tempo não é exagero.
E há uma causa frequente e pouco procurada: os músculos da região íntima contraídos o tempo todo. Os especialistas estimam que isso esteja presente em cerca de 8 de cada 10 mulheres com dor pélvica de longa duração. Ultrassom não mostra músculo contraído. Só o exame feito com as mãos.
Vale a pena repetir os exames?
Repetir o mesmo exame procurando a mesma coisa costuma dar o mesmo resultado. O que ajuda é procurar outra coisa.
| O que ainda vale procurar | Por que pode ter passado |
|---|---|
| Endometriose profunda | Precisa de preparo do intestino e de quem tem treino |
| Adenomiose (útero inchado e sensível) | O examinador precisa procurar os sinais dela |
| Músculos contraídos | Só aparecem no exame físico |
| Veias dilatadas na pelve | Ganharam orientação médica recente |
| Bexiga e intestino | Costumam doer junto |
Repetir cirurgia só para procurar o que não foi achado não costuma ajudar. E tirar o útero sem doença no útero não é o primeiro caminho, porque a dor pode continuar. Eu decido isso caso a caso, com você.
Como se trata?
O que mais muda o resultado é tratar várias frentes ao mesmo tempo:
- Entender como a dor funciona. Isso já faz parte do tratamento.
- Fisioterapia da região íntima, primeira escolha quando os músculos estão contraídos.
- Tratar a doença de base, se existir, como endometriose ou adenomiose.
- Remédios que agem na dor de nervo, escolhidos depois de entender o tipo de dor.
- Apoio psicológico, porque a dor longa piora o sono e o humor, e isso piora a dor. Não porque a dor seja “da cabeça”.
Como eu acompanho?
Eu acompanho pela sua vida, e não pelo exame. Pergunto quantos dias do mês a dor atrapalhou, como está o sono, se a relação voltou a ser sem dor e se você está precisando menos de analgésico.
A melhora costuma ser lenta e com altos e baixos. No começo, reavalio a cada dois ou três meses. Se nada mudou, troco a estratégia.
Perguntas frequentes
Exame normal quer dizer que a dor é psicológica? Não. Só significa que nenhuma lesão apareceu naquele exame. A dor mantida pelo sistema nervoso é real e tem tratamento.
Fiz cirurgia, não acharam nada e ainda dói. Isso é comum? É uma situação conhecida, a ponto de já ter sido estudada em centenas de mulheres.
Fisioterapia ajuda mesmo? Ajuda, principalmente quando os músculos estão contraídos. Precisa de profissional com formação específica e de continuidade.
Dor pélvica crônica é rara? Não. Dependendo de como se conta, ela atinge de 2 a 24 em cada 100 mulheres.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
Laudo normal e dor de verdade podem coexistir. Quando uma mulher me diz que já fez ultrassom, ressonância e às vezes até cirurgia, e que todos voltaram sem nada, eu não leio isso como ausência de doença. Leio como sinal de que os exames feitos até então procuravam um tipo de dor que não é o dela.
O que significa, na prática, um exame normal?
Significa que aquele exame não encontrou uma lesão visível. Não significa que a dor seja inventada, exagerada ou “emocional”.
A medicina chama esse quadro de dor pélvica crônica, e existem documentos escritos especificamente para ele. A diretriz canadense SOGC nº 445, publicada em 2024 por Allaire e colaboradores, parte de três premissas que eu uso no consultório: a dor pode ter mais de uma origem ao mesmo tempo, o sistema nervoso participa da dor crônica de forma ativa, e o tratamento que funciona costuma reunir várias frentes, como educação sobre dor, fisioterapia, cuidado psicológico e tratamento médico.
Na literatura brasileira, a revisão de Ribeiro e colaboradores, publicada em 2020 na Femina, revista da FEBRASGO, resume bem a situação de quem tem laudo normal: dor pélvica crônica não é uma doença única, e sim um quadro clínico que pode ser desencadeado por diferentes condições. Cada exame procura uma condição por vez. Por isso ele pode vir normal enquanto a dor segue presente.
Esse grupo de mulheres é tão reconhecido que motivou um ensaio clínico inteiro. O GaPP2, conduzido por Horne e colaboradores e publicado na Lancet em 2020, incluiu 306 mulheres com dor pélvica crônica e laparoscopia sem achado. Ou seja, a ciência trata essa situação como uma condição a ser estudada, e não como um beco sem saída.
De onde vem uma dor que a imagem não mostra?
Eu costumo explicar a dor por três mecanismos, que muitas vezes se sobrepõem.
O primeiro é a dor nociceptiva, ou inflamatória, ligada a uma lesão concreta: um endometrioma, um foco de endometriose, uma aderência. É o tipo que os exames de imagem conseguem flagrar.
O segundo é a dor neuropática, que nasce de um nervo comprimido ou lesionado. Nem sempre há o que ver na imagem.
O terceiro é a dor nociplástica, descrita em detalhe por Fitzcharles e colaboradores na Lancet em 2021. Ela resulta de mudanças na forma como o sistema nervoso processa o estímulo. O mecanismo central é a chamada sensibilização central: o freio natural que o corpo usa para abafar a dor enfraquece, e estímulos comuns, como um toque ou uma pressão leve, passam a ser sentidos como dor.
Quando essa sensibilização já se instalou, a dor deixa de depender do que a provocou no começo e passa a se manter por conta própria. Não há imagem para isso, porque o que mudou foi a regulação do sinal, e não a anatomia dos órgãos.
Existe prova biológica de que essa dor é real?
Existe. Em 2023, Rahmioglu e colaboradores publicaram na Nature Genetics um mapeamento da base genética da endometriose, e parte das variantes encontradas aparece também na enxaqueca, na dor lombar crônica e na síndrome do intestino irritável. Quem convive com dor pélvica crônica muitas vezes tem outras dores no corpo, e essa associação tem explicação biológica. Não é coincidência, nem excesso de sensibilidade.
E o músculo, alguém examinou?
Essa é uma das perguntas que mais faço. A musculatura do assoalho pélvico, quando fica contraída de forma permanente, passa a ser ela mesma uma fonte de dor, e quase ninguém pensa em procurá-la.
No algoritmo de tratamento de Torosis e colaboradores, de 2024, o painel de especialistas estima que essa disfunção de tônus elevado esteja presente em cerca de 80% das mulheres com dor pélvica crônica. É uma estimativa de consenso, e não uma medida de prevalência, mas ajuda a entender por que tanta gente fica sem diagnóstico: ultrassom não avalia músculo contraído. Quem avalia é o exame físico feito com esse objetivo.
Vale a pena repetir os exames?
Repetir o mesmo exame, ano após ano, procurando a mesma coisa, costuma produzir o mesmo laudo. O que muda o resultado é mudar a pergunta.
| O que ainda pode valer investigar | Por que pode ter passado despercebido |
|---|---|
| Endometriose profunda | Exige ultrassom com preparo intestinal e examinador com treino específico |
| Adenomiose | Depende de o examinador procurar ativamente os critérios de consenso |
| Assoalho pélvico com tônus elevado | O diagnóstico é feito no exame físico, não na imagem |
| Dor de origem em nervo | Depende de história e exame dirigidos, não de imagem de rotina |
| Origem venosa na pelve | Ganhou documento de orientação da SIR em 2026 (Kaufman e colaboradores) |
| Bexiga e intestino | Dor vesical e intestino irritável frequentemente acompanham a dor pélvica |
| Componente nociplástico | Não tem exame de imagem; é reconhecido na avaliação clínica |
Repetir laparoscopia diagnóstica só para procurar o que já não foi encontrado não costuma ajudar. Já a histerectomia indicada só pela dor, sem doença do útero comprovada, não tem consenso: de um lado, séries antigas mostram que boa parte das mulheres melhorou; de outro, o que hoje se sabe sobre dor nociplástica indica que ela pode continuar depois da retirada do órgão. Essa decisão eu tomo caso a caso, nunca como primeiro passo.
Como eu organizo o tratamento?
A principal diferença em relação ao que muitas mulheres já tentaram é fazer várias coisas ao mesmo tempo, em vez de uma por vez.
Entender o mecanismo. Compreender o que é sensibilização central muda a forma como a pessoa lida com a própria dor. A SOGC 445 coloca a educação sobre dor como parte do tratamento, e não como introdução.
Fisioterapia do assoalho pélvico. Todos os especialistas do painel de Torosis e colaboradores concordaram que, no assoalho pélvico de tônus elevado, a fisioterapia vem em primeiro lugar. Para a dor ligada à endometriose, Abril-Coello e colaboradores (2023) reuniram em revisão sistemática com metanálise o efeito da fisioterapia sobre a dor e a qualidade de vida.
Tratar a doença de base, quando ela existe. Endometriose, adenomiose ou outra causa identificada recebem o tratamento próprio, clínico ou cirúrgico.
Medicações que atuam na dor de nervo e na dor nociplástica. É a frente com mais divergência entre as publicações: a FEBRASGO passou a recomendá-las em 2025, enquanto uma revisão da UERJ, de 2022, julgou a evidência insuficiente. A escolha depende de classificar bem o tipo de dor antes de prescrever.
Cuidado psicológico. Ele entra porque a dor que se arrasta prejudica o sono, o humor e a concentração, e cada um desses, por sua vez, aumenta a dor. Não entra porque a dor seja psicológica. O consenso francês do CNGOF e do grupo Convergences PP, publicado em 2025 por Fritel e colaboradores, organiza a abordagem das dores pélvicas associadas à endometriose nessa mesma lógica multidisciplinar.
Como eu acompanho a evolução?
Pela função, e não pela imagem. No retorno, pergunto quantos dias do mês a dor atrapalhou sua rotina, como está o sono, se a relação sexual voltou a acontecer sem dor e se o analgésico de resgate passou a ser usado com menos frequência.
Na dor crônica, a melhora vem aos poucos e não em linha reta: há semanas melhores e semanas piores. Isso faz parte do processo e não significa que o tratamento falhou.
Combinamos juntos o intervalo de reavaliação, em geral de dois a três meses no início. Se nada mudou nesse período, eu troco a estratégia em vez de insistir na mesma.
Perguntas frequentes
Se o exame é normal, a dor é psicológica? Não. Significa apenas que aquele exame não encontrou lesão. A dor nociplástica é um mecanismo neurobiológico descrito, com critérios e tratamento.
Fiz laparoscopia, não acharam nada e a dor continua. Isso acontece? Acontece, e é uma situação reconhecida a ponto de o GaPP2, de 2020, ter recrutado 306 mulheres exatamente nessa condição.
Por que tenho dor pélvica, enxaqueca e intestino irritável ao mesmo tempo? Rahmioglu e colaboradores, em 2023, encontraram base genética em comum entre endometriose, enxaqueca, dor lombar crônica e intestino irritável.
Fisioterapia pélvica funciona para dor? É primeira linha quando o assoalho pélvico está com tônus elevado e foi estudada na dor associada à endometriose. Precisa de profissional com formação específica e continuidade.
Dor pélvica crônica é rara? Não. O GaPP2 cita que ela atinge de 2% a 24% das mulheres, conforme a definição e a população estudada.
Se você está nessa situação e quer conversar sobre o seu caso, pode me chamar no WhatsApp (11) 93371-4477. Traga também os exames normais: eles mostram o que já foi procurado.
Referências
- Allaire C, Yong PJ, Bajzak K, Jarrell J, Lemos N, Miller C, Morin M, Nasr-Esfahani M, Singh SS, Chen I. Guideline No. 445: Management of Chronic Pelvic Pain. J Obstet Gynaecol Can. 2024;46(1):102283. DOI 10.1016/j.jogc.2023.102283
- Fitzcharles MA, Cohen SP, Clauw DJ, Littlejohn G, Usui C, Häuser W. Nociplastic pain: towards an understanding of prevalent pain conditions. Lancet. 2021;397(10289):2098-2110. DOI 10.1016/S0140-6736(21)00392-5
- Horne AW, Vincent K, Hewitt CA, Middleton LJ, Koscielniak M, Szubert W, Doust AM, Daniels JP. Gabapentin for chronic pelvic pain in women (GaPP2): a multicentre, randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2020;396(10255):909-917. DOI 10.1016/S0140-6736(20)31693-7
- Rahmioglu N, et al. The genetic basis of endometriosis and comorbidity with other pain and inflammatory conditions. Nat Genet. 2023;55(3):423-436. DOI 10.1038/s41588-023-01323-z · PMID 36914876
- Torosis M, Carey E, Christensen K, et al. A Treatment Algorithm for High-Tone Pelvic Floor Dysfunction. Obstet Gynecol. 2024;143(4):595-602. DOI 10.1097/AOG.0000000000005536
- Abril-Coello R, et al. Benefits of physical therapy in improving quality of life and pain associated with endometriosis: A systematic review and meta-analysis. Int J Gynaecol Obstet. 2023;162(1):233-243. DOI 10.1002/ijgo.14645 · PMID 36571475
- Fritel X, et al. Douleurs pelviennes associées à l’endométriose, conseils pour la pratique clinique. Un consensus formalisé d’experts par le CNGOF & Convergences PP. Gynecol Obstet Fertil Senol. 2025;53(11):536-547. DOI 10.1016/j.gofs.2025.06.003
- Kaufman CS, et al. The Society of Interventional Radiology Practice Guidance Document on Venous-Origin Chronic Pelvic Pain in Women. J Vasc Interv Radiol. 2026;37(6):107954. DOI 10.1016/j.jvir.2025.107954 · PMID 41786126
- Ribeiro PA, Abdalla-Ribeiro HS, Eras A. Dor pélvica crônica. Femina. 2020;48(5):262-276. DOI 10.61622/0100-7254485202001

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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