O que pode ser essa dor?
A dor durante a penetração quase sempre tem uma causa física que dá para encontrar, e o caminho começa por uma pergunta simples: dói na entrada da vagina ou lá no fundo?
Eu sei que esse assunto costuma demorar a chegar à consulta. Muitas mulheres passam meses trocando de posição, evitando a relação ou ouvindo que é ansiedade. Dor que se repete merece ser levada a sério, e ela tem nome: dispareunia.
Por que o lugar da dor importa tanto?
Porque cada lugar aponta para causas diferentes.
| Onde dói | O que costuma estar por trás |
|---|---|
| Na entrada, com ardência | Ressecamento por falta de hormônio, problema de pele, cicatriz de parto |
| Na entrada, como se houvesse uma barreira | Músculos da região íntima contraídos o tempo todo |
| No fundo, em algumas posições | Endometriose, adenomiose (quando o útero fica inchado e sensível), aderências |
| Nos dois lugares | Mais de uma causa ao mesmo tempo |
Depois da menopausa, a falta de hormônio deixa a parede da vagina mais fina e seca. O lubrificante ajuda na hora, mas não trata o tecido.
Os músculos da região íntima, chamados de assoalho pélvico, são uma causa comum e pouco lembrada. Os especialistas estimam que estejam contraídos em cerca de 8 de cada 10 mulheres com dor pélvica de longa duração. Isso não aparece no ultrassom. Só o exame com as mãos encontra.
Por que a dor às vezes continua mesmo tratando?
Quando a relação dói muitas vezes, o corpo aprende a se defender. Os músculos se fecham antes da penetração, a lubrificação diminui e a dor aumenta. Por isso, depois de muito tempo, tratar só a causa inicial pode não ser suficiente, e eu costumo combinar mais de uma abordagem.
Quando procurar avaliação?
Quando a dor se repete, quando mudou de jeito, quando há sangramento depois da relação, quando existe dor na pelve também fora do sexo, ou quando começou depois de um parto ou de uma cirurgia. Dor nas primeiras relações também merece avaliação se não passar. E não existe tempo mínimo de sofrimento: se incomoda você, já é motivo.
Como é a consulta?
Primeiro eu escuto: em que momento dói, em quais posições, o que melhora e o que você já tentou. Depois vem o exame, numa ordem pensada para descobrir de onde vem a dor: primeiro a parte de fora, depois a vagina, depois os músculos e, por último, o útero e os ovários.
Antes de começar, combinamos que o exame para na hora em que você pedir.
Ultrassom ou ressonância entram quando há suspeita de doença mais profunda, e o resultado depende muito do preparo e da experiência de quem examina.
Como se trata?
O tratamento segue a causa. Para o ressecamento após a menopausa, hidratantes, lubrificantes e, quando necessário, hormônio aplicado no próprio local, com alternativas para quem não pode usar. Para os músculos contraídos, a fisioterapia da região íntima é o primeiro passo. Para endometriose ou adenomiose, trata-se a doença, com remédio ou cirurgia, conforme o caso.
Apoio psicológico e terapia sexual também fazem parte, junto com o tratamento físico. Dor prolongada mexe com desejo, sono e relacionamento, e tudo isso mexe com a dor.
No começo, eu reavalio a cada dois ou três meses. A volta à vida sexual acontece aos poucos, no seu tempo.
Perguntas frequentes
Sentir dor na relação é normal? Não. Pode ser comum, mas não é esperado. Dor que se repete tem causa.
Pode ser endometriose? Pode, principalmente quando a dor é no fundo e piora em certas posições.
Meus exames vieram normais. Então não tenho nada? Não necessariamente. Os músculos contraídos e a dor mantida pelo próprio sistema nervoso não aparecem em exame de imagem, e os dois têm tratamento.
Lubrificante resolve? Ajuda em parte das dores na entrada. Se a dor continua mesmo com lubrificante, vale avaliar.
Posso levar meu parceiro? Pode, se você quiser. A retomada da vida sexual costuma andar melhor quando a conversa é feita junto.
Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.
Dor durante a penetração quase nunca é “coisa da cabeça”. No consultório, essa costuma ser a queixa que a mulher deixa para o final da consulta, quase como um comentário, depois de meses mudando de posição, evitando a relação ou escutando que é ansiedade. O nome médico é dispareunia, e na maior parte das vezes existe uma origem física que o exame consegue apontar.
Qual é a primeira coisa que eu pergunto?
Antes de pedir qualquer exame, eu quero saber onde dói. A dor aparece na abertura da vagina, logo no começo da penetração? Ou ela é sentida lá dentro, com o movimento, e piora em algumas posições?
Essa pergunta organiza todo o raciocínio. Broul e colaboradores, em revisão publicada em 2026 no International Journal of Gynecology & Obstetrics sobre mulheres na perimenopausa e na pós-menopausa, defendem justamente isso: classificar a dor pelo fenótipo, ou seja, pelo padrão com que ela se manifesta, em vez de aplicar a mesma lista de exames a todo mundo.
Quando a dor é de entrada, eu penso primeiro em vulva, vestíbulo (a faixa de pele e mucosa logo na abertura da vagina) e musculatura do assoalho pélvico. Quando é de fundo, a atenção vai para útero, ovários, ligamentos e o espaço atrás do útero, onde a endometriose e a adenomiose costumam se manifestar. E não é raro encontrar os dois padrões na mesma mulher.
O que costuma explicar cada tipo de dor?
| Como a dor se apresenta | Hipóteses que eu considero | O que ajuda a confirmar |
|---|---|---|
| Na entrada, com ardência ou sensação de atrito | Ressecamento e atrofia por queda hormonal, dor vestibular, doença de pele da vulva, infecção, cicatriz de parto | Exame cuidadoso da vulva e do vestíbulo, com teste dirigido |
| Na entrada, com sensação de barreira | Musculatura do assoalho pélvico com tônus elevado | Exame físico do assoalho pélvico; imagem não mostra |
| No fundo, em certas posições | Endometriose, principalmente a profunda; adenomiose; aderências | Ultrassom com preparo intestinal ou ressonância |
| No fundo, espalhada, junto com outras dores do corpo | Componente nociplástico, com sensibilização central | História clínica dirigida e avaliação clínica |
| Nos dois lugares | Mais de uma origem ao mesmo tempo | Exame que percorre vulva, vagina, assoalho e toque bimanual |
A tabela não substitui a consulta, mas mostra por que dois exames normais, feitos sem saber onde dói, podem simplesmente ter procurado no lugar errado.
O que muda depois da menopausa?
Com a queda do estrogênio, o tecido da vagina fica mais fino, mais seco e mais sensível ao atrito. Esse conjunto de alterações recebeu nome próprio, síndrome geniturinária da menopausa, e ganhou diretriz específica em 2025, publicada por Kaufman e colaboradores pelas sociedades americanas AUA, SUFU e AUGS.
O ponto que eu sempre reforço: não se trata de um ressecamento qualquer. O lubrificante ajuda na hora da relação, mas não trata o tecido. Por isso, quando os sintomas incomodam de verdade, a conversa vai além do lubrificante.
A musculatura pode ser a responsável pela dor?
Pode, e é a causa que menos se procura. Quando os músculos do assoalho pélvico ficam contraídos o tempo todo, a penetração encontra resistência e dói. Muitas mulheres descrevem isso como “parece que tem uma parede”.
No algoritmo de tratamento publicado por Torosis e colaboradores em 2024, o painel de especialistas estima que essa disfunção de tônus elevado esteja presente em cerca de 80% das mulheres com dor pélvica crônica. É uma estimativa por consenso, e não um estudo de prevalência, mas dá a dimensão do problema. Como se trata de músculo contraído, nenhum ultrassom vai mostrar. Quem encontra é o exame físico feito com essa pergunta em mente.
E quando a dor vem lá de dentro?
A dor profunda tem uma lista conhecida na ginecologia cirúrgica. A endometriose, especialmente a profunda, pode acometer os ligamentos que ficam atrás do útero, que são justamente tensionados durante a penetração. A adenomiose deixa o útero maior e dolorido ao toque. Aderências deixadas por cirurgias anteriores e cistos de ovário em determinadas posições completam a lista.
Esse é o grupo em que exames de imagem fazem diferença, desde que bem indicados e bem feitos, como explico mais adiante.
Por que a dor às vezes continua depois de tratar a causa?
Porque a dor repetida deixa marcas no próprio sistema de alerta do corpo. Depois de muitas relações dolorosas, o organismo passa a antecipar a dor: a musculatura se contrai antes mesmo da penetração, a lubrificação diminui e a dor aumenta, o que reforça a contração na vez seguinte. O ciclo se fecha sozinho.
A diretriz canadense SOGC nº 445, de 2024 (Allaire e colaboradores), trata esse componente como parte da dor pélvica crônica. Isso explica por que, depois de anos, resolver só a causa inicial nem sempre basta, e por que o plano costuma ter mais de uma frente.
Quando vale a pena procurar avaliação?
Eu recomendo avaliar quando:
- a dor se repete, mesmo que não seja em todas as relações;
- o padrão mudou em relação ao que era antes;
- aparece sangramento depois da relação;
- existe dor pélvica também fora do sexo;
- a dor começou depois de um parto ou de uma cirurgia;
- a dor já está mudando a forma como você se relaciona com o próprio corpo.
Dor nas primeiras relações também merece atenção se persistir. Ela costuma ser atribuída a nervosismo, quando muitas vezes existe uma origem física que pode ser identificada. E não existe um tempo mínimo de sofrimento para justificar a consulta: se incomoda você, já é motivo suficiente.
Como eu conduzo a avaliação?
Começo pela conversa, e ela é bem dirigida. Pergunto em que momento da relação a dor aparece, se é sempre ou só em algumas posições, se melhora com lubrificante, se há dor fora do sexo, se existe coceira, ardência ou alguma lesão na pele, e o que você já tentou.
O exame segue uma sequência que não é aleatória. O percurso descrito por Broul e colaboradores começa pela vulva e pelo vestíbulo, passa pela vagina, depois pela musculatura do assoalho pélvico, e termina no toque bimanual, que avalia útero, ovários e a região atrás do útero. Seguir essa ordem permite reproduzir a dor com delicadeza e localizar de onde ela vem, em vez de terminar com um “está tudo normal” que não explica nada.
Antes de começar, combinamos que o exame para quando você pedir. Nenhuma etapa precisa provocar uma dor que você não autorizou.
Os exames de imagem vêm depois, quando a conversa ou o exame físico sugerem doença profunda. Para endometriose e adenomiose, o rendimento do exame depende muito de quem o faz e do preparo correto, algo que a diretriz europeia ESHRE de 2022 (Becker e colaboradores) e a diretriz canadense SOGC nº 437, de 2023 (Dason e colaboradores), deixam explícito. Por isso, um exame normal não encerra a investigação quando a história aponta na direção contrária.
Quais são os caminhos de tratamento?
O tratamento acompanha a origem encontrada, e quase sempre combina mais de uma abordagem.
Tecido vaginal após a menopausa. Pela diretriz de 2025 sobre síndrome geniturinária, o primeiro passo são hidratantes e lubrificantes; se os sintomas forem importantes, acrescenta-se hormônio de uso local, aplicado na própria vagina. Para quem não pode ou não quer usar estrogênio, existem alternativas.
Musculatura contraída. A fisioterapia do assoalho pélvico é a primeira linha. No painel de Torosis e colaboradores, essa recomendação teve concordância unânime entre os especialistas.
Endometriose ou adenomiose. O tratamento passa a ser o da doença, clínico ou cirúrgico, conforme a extensão e o que você deseja.
Componente nociplástico. Entram a educação sobre como a dor funciona, a fisioterapia e, em casos selecionados, medicações que atuam na modulação da dor pelo sistema nervoso.
Saúde emocional e vida sexual. Acompanhamento psicológico e terapia sexual fazem parte do plano, e não substituem o tratamento físico. Dor sexual prolongada interfere no desejo, no sono e no vínculo, e esses três fatores interferem na dor.
Esse olhar tem respaldo em publicação brasileira. Sousa e colaboradores revisaram de forma sistemática, na Femina (revista da FEBRASGO), em 2025, como a endometriose afeta a vida sexual e a relação do casal, e a conclusão foi que o médico deve trazer esse assunto para a consulta, sem esperar que a paciente o faça. É por isso que eu pergunto, mesmo quando a queixa principal é outra.
Eu não prometo prazo nem resultado. O que existe é uma conduta para cada origem de dor, e um plano que é revisto se o primeiro caminho não der o retorno esperado.
Como fica o acompanhamento?
No início, reavalio a cada dois ou três meses. As perguntas do retorno são concretas: a dor mudou de intensidade, de lugar ou de momento? Voltou a acontecer relação sem dor? O que você deixou de fazer por medo de doer? A retomada da vida sexual acontece por etapas, no seu tempo, e o seu parceiro ou parceira pode participar dessa conversa se você quiser.
Perguntas frequentes
É normal sentir dor na relação? Ser frequente não torna a dor esperada. Dor que se repete tem uma origem, e na maioria das vezes ela aparece no exame.
A dor pode ser endometriose? Pode, sobretudo quando é profunda e piora em certas posições. A adenomiose também causa dor profunda, e as duas aparecem juntas com frequência.
Só dói na entrada. O que costuma ser? Quando a dor fica só na abertura da vagina, as suspeitas recaem sobre a vulva, o vestíbulo, a pele da região e os músculos do assoalho pélvico. É por essa região que o exame começa.
Depois da menopausa, a dor tem tratamento? Tem. Desde 2025 existe uma diretriz dedicada à síndrome geniturinária da menopausa, e o tratamento pode ir do hidratante e do lubrificante até o hormônio aplicado na vagina.
Meus exames vieram normais e eu continuo com dor. O que falta? Há duas origens de dor que nenhuma imagem mostra: o músculo do assoalho pélvico contraído, que só aparece no exame com as mãos, e o componente nociplástico. Os dois têm tratamento.
O lubrificante resolve? Em parte das dores de entrada, ajuda. Mas ele não resolve dor do vestíbulo, doença de pele, musculatura contraída nem doença profunda. Se mesmo com lubrificante a dor continua, é hora de investigar.
Se quiser conversar sobre o que você sente, com calma e no seu ritmo, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.
Referências
- Broul M, Vančo M, Banýrová J, Hujová A. Assessment and management of dyspareunia in peri- and postmenopausal women: A phenotype-based gynecologic approach. Int J Gynaecol Obstet. 2026. DOI 10.1002/ijgo.71238 · PMID 42454524
- Kaufman MR, et al. The AUA/SUFU/AUGS Guideline on Genitourinary Syndrome of Menopause. J Urol. 2025;214(3):242-250. DOI 10.1097/JU.0000000000004589 · PMID 40298120
- Torosis M, Carey E, Christensen K, et al. A Treatment Algorithm for High-Tone Pelvic Floor Dysfunction. Obstet Gynecol. 2024;143(4):595-602. DOI 10.1097/AOG.0000000000005536
- Allaire C, Yong PJ, Bajzak K, et al. Guideline No. 445: Management of Chronic Pelvic Pain. J Obstet Gynaecol Can. 2024;46(1):102283. DOI 10.1016/j.jogc.2023.102283
- Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. DOI 10.1093/hropen/hoac009
- Dason ES, Maxim M, Sanders A, Papillon-Smith J, Ng D, Chan C, Sobel M. Guideline No. 437: Diagnosis and Management of Adenomyosis. J Obstet Gynaecol Can. 2023;45(6):417-429.e1. DOI 10.1016/j.jogc.2023.04.008
- Sousa BMM, Pontes LAC, Cunha LF, Falcão Júnior JOA. Qual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática. Femina. 2025;53(7):952-958. DOI 10.61622/0100-7254537202512

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico
Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.
Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.
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