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Ristow Ginecologia e Obstetrícia · Dr. José Ricardo Ristow
Cirurgia minimamente invasiva

Pós-operatório de laparoscopia ginecológica: dor no ombro, cicatriz e volta ao trabalho

No pós-operatório de laparoscopia ginecológica, a dor no ombro vem do gás, os cortes viram traços finos e a volta ao trabalho leva mais tempo do que parece.

Dr. José Ricardo W. Ristow

Escrito e revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593

Publicado em
Revisado em · 12 min de leitura

A resposta

No pós-operatório de laparoscopia ginecológica, o trabalho sentado costuma voltar entre a primeira e a segunda semana, os cortes são pequenos e viram traços finos, e a dor no ombro dos primeiros dias vem do gás usado na cirurgia, não de um problema.

Na consulta antes da cirurgia, quase ninguém me pergunta sobre a operação em si. As dúvidas são sobre o depois: quanto tempo parada, como vai ficar a barriga, quando volto ao trabalho. E a dor no ombro pega muita gente de surpresa porque ninguém avisou. Por isso eu aviso.

Como ficam os cortes

São de dois a quatro cortes pequenos, entre meio e pouco mais de um centímetro. Um fica dentro do umbigo e quase desaparece. Os outros ficam na parte baixa da barriga, em geral abaixo da linha da calcinha. Eles escurecem nas primeiras semanas e clareiam com os meses. Proteger do sol por seis meses ajuda, e se você tem tendência a quelóide, me conte antes.

Por que dói o ombro

Para operar, eu encho a barriga com gás, para abrir espaço para a câmera e as pinças. No fim, o gás é retirado, mas sempre sobra um pouco. Esse resto sobe e fica embaixo do diafragma, o músculo que separa o peito da barriga.

O diafragma compartilha nervos com a pele do ombro. Quando o gás irrita o diafragma, o cérebro “acha” que o incômodo está no ombro, quase sempre no direito. A dor é mais forte no primeiro e no segundo dia e melhora conforme o corpo absorve o gás. Caminhar ajuda, e por isso eu peço que você se levante já no dia da cirurgia. O mesmo gás explica a barriga estufada e o incômodo para respirar fundo.

Quando a laparoscopia é o caminho

Ela é a primeira escolha em grande parte das cirurgias ginecológicas que não envolvem câncer: endometriose, alguns miomas, cistos de ovário, gravidez fora do útero, aderências e retirada do útero quando não dá para operar pela vagina. Cirurgia anterior na barriga, endometriose profunda e útero muito grande deixam a cirurgia mais longa e a recuperação mais lenta.

Quanto tempo até voltar ao normal

Etapa Quando costuma acontecer
Levantar e caminhar No dia da cirurgia
Alta No mesmo dia ou no dia seguinte
Dor no ombro e barriga estufada Pior no 1º e 2º dia, melhora entre o 3º e o 7º
Banho de chuveiro Desde o primeiro dia
Trabalho sentado Entre a 1ª e a 2ª semana
Consulta de revisão Entre 7 e 15 dias

A volta completa ao trabalho costuma demorar mais do que se imagina. Num estudo com mulheres que trabalhavam fora, metade levou cerca de dois meses para voltar por completo, e esse tempo caiu perto de duas semanas quando a orientação foi feita sob medida para cada uma. Por isso eu combino os prazos com você, em vez de entregar uma folha padrão.

Procure atendimento no mesmo dia se tiver febre, dor que aumenta em vez de diminuir, vômito que não para, se parar de soltar gases, se os cortes ficarem vermelhos ou com secreção, se sentir falta de ar ou dor na batata da perna.

Perguntas frequentes

A dor no ombro é sinal de problema? Não. É o gás da cirurgia e passa em poucos dias. Preocupa dor que aumenta, febre ou falta de ar.

Quanto tempo a barriga fica inchada? O estufamento do gás melhora entre o terceiro e o sétimo dia. Um inchaço leve pode durar algumas semanas.

Posso tomar banho? Banho de chuveiro, sim, desde o primeiro dia. Piscina, mar e banheira só depois da revisão.

Tem ponto para tirar? Na maioria das vezes, não. A pele é fechada com ponto por dentro ou com cola.

Quantos dias de atestado? Depende da cirurgia e do seu trabalho. Eu defino o atestado na alta, de acordo com o seu caso.

Se quiser conversar sobre a sua recuperação antes de marcar a cirurgia, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Quer o detalhe? O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes.
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Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.

Na consulta antes de uma laparoscopia, as perguntas que mais escuto não são sobre a cirurgia em si. São sobre o que vem depois: quantos dias parada, como vai ficar a barriga, quando volto a trabalhar. E existe uma pergunta que quase ninguém faz antes, porque não sabe que vai precisar: por que o ombro dói no segundo dia. Eu organizo este texto na ordem em que essas dúvidas costumam aparecer.

Como ficam os cortes?

As incisões da laparoscopia são pequenas, entre 5 e 12 milímetros, e na maioria das cirurgias ginecológicas são de duas a quatro. Uma delas fica dentro do umbigo e se perde no contorno natural dele. As demais costumam ser feitas no baixo ventre, numa altura que a calcinha normalmente cobre.

Com o tempo, esses orifícios viram pontos ou traços finos. Eles escurecem nas primeiras semanas e clareiam ao longo dos meses. Eu oriento proteção solar na região por seis meses, e peço que você me avise antes da cirurgia se tem tendência a quelóide.

Por que o ombro dói depois da laparoscopia?

Para operar, eu encho o abdome com gás carbônico, que cria o espaço onde a câmera e as pinças trabalham. No fim da cirurgia, esse gás é aspirado, mas sempre sobra um resíduo. Ele sobe e se acomoda embaixo do diafragma, o músculo que separa o tórax do abdome.

O diafragma é inervado pelo nervo frênico, que nasce das raízes cervicais C3, C4 e C5. Essas mesmas raízes levam a sensibilidade da pele do ombro. Quando o diafragma é irritado pelo gás, o cérebro recebe o sinal e o interpreta como vindo do ombro. É o que se chama dor referida: a causa está embaixo das costelas, e a sensação aparece no ombro, mais vezes no direito, às vezes na ponta da escápula ou na base do pescoço.

Essa dor costuma começar nas primeiras horas, ser mais forte no primeiro e no segundo dia e melhorar conforme o gás é absorvido. Caminhar ajuda, e por isso eu peço que você se levante ainda no dia da cirurgia. O mesmo resíduo de gás explica a barriga estufada e o desconforto ao respirar fundo nos primeiros dias.

Dá para reduzir essa dor durante a cirurgia?

Duas estratégias foram testadas em ensaios randomizados, com resultados diferentes. Deixar soro dentro do abdome no fim da cirurgia reduziu a dor no ombro numa meta-análise de 11 ensaios com 1.143 mulheres (Lemos et al., 2026). A queda média foi de 1,46 ponto na escala de dor em 12 horas, e o benefício desapareceu quando a paciente já recebia anti-inflamatório de rotina.

Reduzir a pressão do gás, de 12 a 15 para 8 a 10 mmHg, foi avaliado pelo mesmo grupo em outros 11 ensaios com 1.156 mulheres, sem melhora consistente da dor nem do tempo de internação. Nenhuma das duas medidas elimina a dor no ombro. Elas são decisões técnicas tomadas no centro cirúrgico, e eu explico qual uso no seu caso.

O que é feito durante a cirurgia?

Com você sob anestesia geral, eu entro pelo umbigo, encho o abdome com gás carbônico e posiciono a câmera. As pinças entram por dois ou três orifícios na parte baixa do abdome. A mesa é inclinada com a cabeça mais baixa, o que afasta o intestino da pelve e deixa à vista o útero e os ovários.

No fim, o gás é aspirado, a aponeurose dos orifícios maiores é fechada com ponto e a pele é fechada com sutura interna ou cola. Na maioria das vezes não há ponto para retirar. A duração vai de cerca de 40 minutos, numa cirurgia simples, a várias horas, numa endometriose extensa.

Em quais cirurgias a laparoscopia é o caminho?

Na cirurgia ginecológica sem câncer, a via minimamente invasiva é a primeira escolha na maior parte das situações: endometriose, cisto e tumor de ovário, mioma que exige acesso pelo abdome, gravidez ectópica, aderências, dor pélvica ainda sem diagnóstico e retirada do útero quando a via vaginal não é viável.

Nem toda recuperação começa igual. Quem já operou o abdome, tem endometriose profunda, teve doença inflamatória pélvica ou tem um útero muito grande costuma ter uma cirurgia mais demorada e uma recuperação mais lenta. Richards e colaboradores (2021) estudaram esses fatores em laparoscopias ginecológicas benignas. Os riscos do seu caso são conversados na consulta.

Quanto tempo leva cada etapa da recuperação?

Etapa Quando costuma acontecer
Levantar e caminhar No dia da cirurgia
Alta No mesmo dia ou no dia seguinte, conforme o procedimento
Dor no ombro e barriga estufada Pico no 1º e no 2º dia, melhora entre o 3º e o 7º
Banho de chuveiro Liberado desde o primeiro dia
Trabalho sentado Em geral entre a 1ª e a 2ª semana, conforme a cirurgia
Relação sexual Conforme orientação médica, mais tarde se houve sutura na vagina
Consulta de revisão Entre 7 e 15 dias

O quanto a cirurgia foi extensa por dentro pesa mais que o tamanho dos cortes por fora. Na revisão Cochrane de Pickett e colaboradores (2023), com 63 estudos randomizados e 6.811 mulheres, a histerectomia por laparoscopia permitiu voltar às atividades cerca de 13 dias antes da via aberta. Na prática, se a recuperação pela via aberta levasse 37 dias, pela laparoscopia ficaria entre 22 e 25.

Por que a volta ao trabalho demora mais do que parece?

O retorno pleno ao trabalho costuma levar mais tempo do que a maioria imagina. Num estudo holandês com 433 mulheres empregadas, operadas de histerectomia ou de cirurgia nos anexos por laparoscopia (Bouwsma et al., BMJ Open, 2018), a mediana até o retorno completo ao trabalho foi de 62 dias com o cuidado habitual e de 49 dias no grupo que recebeu orientação individualizada sobre a convalescença. Uma orientação específica encurtou o afastamento, e é por isso que eu combino os prazos com você em vez de entregar uma folha padrão.

Numa meta-análise de 17 estudos em histerectomia (Nian et al., 2024), os programas de recuperação acelerada encurtaram a internação e diminuíram o íleo pós-operatório, sem elevar a taxa de reinternação nem a dor relatada. Esses programas combinam jejum curto, analgesia que reduz ao mínimo o uso de opioide, sonda retirada cedo e caminhada no próprio dia da cirurgia. Eu sigo essa lógica porque, quanto menos opioide, melhor para a paciente: o alívio da dor vem da combinação de analgésicos, e o opioide fica para quando realmente for necessário.

No Brasil, esse conjunto de práticas tem referência própria. O Posicionamento FEBRASGO nº 2, de fevereiro de 2022 (Santiago et al., Femina), sobre manejo perioperatório baseado no programa ERAS, referendado pelas comissões nacionais de Endoscopia Ginecológica, Endometriose e Ginecologia Oncológica, recomenda retomar líquidos e sólidos nas primeiras 24 horas, estimular a mobilização precoce, retirar a sonda vesical em até 24 horas e usar analgesia multimodal poupadora de opioide. A FEBRASGO não tem protocolo dedicado à videolaparoscopia em doença benigna, e é esse posicionamento que serve de referência nacional.

Quando procurar o médico antes do retorno?

Em qualquer dia do pós-operatório, entre em contato no mesmo dia se tiver febre, dor que aumenta em vez de diminuir, vômito persistente, parada de eliminação de gases, vermelhidão ou secreção nos cortes, falta de ar ou dor na panturrilha.

E a cobertura?

A videolaparoscopia ginecológica consta no rol de procedimentos da ANS e, havendo indicação médica, costuma ter cobertura pelos planos de saúde. Cada contrato tem as suas regras de autorização, e o pedido vai acompanhado do relatório clínico, dos exames de imagem e dos códigos do procedimento.

O que perguntar antes de marcar a data

  • Quantas incisões estão previstas no meu caso, e onde vão ficar?
  • Quanto tempo a minha cirurgia deve durar?
  • Recebo alta no mesmo dia ou passo a noite no hospital?
  • Quais são os riscos no meu caso?
  • Se eu tiver um problema em casa durante a noite, com quem falo?
  • Quando estou liberada para dirigir, pegar peso e voltar ao treino?

Perguntas frequentes

A dor no ombro quer dizer que algo deu errado? Não. É dor referida do gás que ficou embaixo do diafragma, prevista e passageira. O que pede contato é dor que cresce, febre ou falta de ar.

Por quanto tempo a barriga fica inchada? O estufamento do gás costuma melhorar entre o terceiro e o sétimo dia. O inchaço da parede do abdome pode durar algumas semanas e melhora sozinho.

Posso molhar os curativos no banho? O banho de chuveiro está liberado desde o primeiro dia. Banheira, piscina e mar só depois da consulta de revisão.

Laparoscopia tem risco? Tem, como qualquer cirurgia, e os riscos do seu caso eu converso com você na consulta, com os seus exames em mãos. A vantagem da via por vídeo é dispensar o corte grande no abdome, que é onde se concentram a dor, a infecção da ferida e a hérnia.

Quantos dias de atestado vou precisar? Depende da cirurgia e do seu trabalho. O trabalho sentado costuma voltar na primeira ou na segunda semana, e o retorno pleno leva mais tempo. O atestado é feito sob medida na alta.

Se quiser conversar sobre o seu pós-operatório antes de marcar a cirurgia, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Referências

  1. Pickett CM, Seeratan DD, Mol BWJ, Nieboer TE, Johnson N, Bonestroo T, Aarts JW. Surgical approach to hysterectomy for benign gynaecological disease. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2023;8:CD003677. DOI 10.1002/14651858.CD003677.pub6
  2. Lemos MJ, Curi-Pesantes B, da Silva DBP, Queiroz LF, Carugno J. Intraperitoneal Crystalloid Instillation to Reduce Shoulder-Tip Pain After Benign Gynecologic Laparoscopy: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. J Minim Invasive Gynecol. 2026;33(6):715-724. DOI 10.1016/j.jmig.2026.01.046
  3. Lemos MJ, et al. Low-Pressure Versus Standard-Pressure Pneumoperitoneum in Gynecologic Laparoscopic Surgery: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Minim Invasive Gynecol. 2026;33(9):1273-1282. DOI 10.1016/j.jmig.2026.05.017
  4. Bouwsma EVA, Huirne JAF, van de Ven PM, et al. Effectiveness of an internet-based perioperative care programme to enhance postoperative recovery in gynaecological patients: cluster controlled trial with randomised stepped-wedge implementation. BMJ Open. 2018;8(1):e017781. DOI 10.1136/bmjopen-2017-017781
  5. Nian J, Li Z, Chen P, Ye P, Liu C. Enhanced recovery after surgery versus conventional postoperative care in patients undergoing hysterectomy: a systematic review and meta-analysis. Arch Gynecol Obstet. 2024;310(1):515-524. DOI 10.1007/s00404-024-07475-5
  6. Richards L, Healey M, Cheng C, Reddington C, Robson-Hamond C, Dior U. Risk Factors and Outcomes of Conversion to Open Surgery in Benign Gynecologic Laparoscopies: A Case-Control Study. J Minim Invasive Gynecol. 2021;28(10):1786-1794. DOI 10.1016/j.jmig.2021.03.013
  7. Santiago AE, Silva Filho AL, Cândido EB, Ribeiro PA, Rosa e Silva JC, Primo WQ, et al. Manejo perioperatório em cirurgia ginecológica baseado no programa ERAS. Posicionamento FEBRASGO nº 2, fevereiro de 2022. Femina. 2022;50(2):112-120. DOI 10.61622/0100-7254502202206
Dr. José Ricardo W. Ristow, ginecologista

Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico

Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.

Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.

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