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Ristow Ginecologia e Obstetrícia · Dr. José Ricardo Ristow
Uroginecologia

Bexiga caída ou útero descido: quais tratamentos existem, com e sem cirurgia

Sente uma bola na vagina? Pode ser bexiga caída. Explico em palavras simples o que é, quando dá para só acompanhar, como o pessário ajuda e quando operar.

Dr. José Ricardo W. Ristow

Escrito e revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593

Publicado em
Revisado em · 12 min de leitura

Bexiga caída tem tratamento sem cirurgia?

Tem. Nem toda bexiga caída, nem todo útero descido, precisa de cirurgia: existem a fisioterapia dos músculos da região íntima e o pessário. A cirurgia entra quando o incômodo continua.

Perceber uma bola na entrada da vagina assusta, e muitas mulheres esperam meses para falar disso. O nome médico é prolapso. Não é câncer, não vira câncer e não é emergência.

O que é essa bola?

A bexiga, o útero e o intestino ficam apoiados nos músculos da região íntima e em tecidos que os sustentam. Quando esse apoio fica fraco, o órgão desce e empurra a parede da vagina. A bola que você sente é isso.

Pode descer a bexiga, pela parede da frente; o intestino, pela parede de trás; o próprio útero; ou, em quem já tirou o útero, o fundo da vagina.

Partos normais, falta de hormônio na menopausa, tosse que não passa, intestino preso e trabalho pesado enfraquecem esse apoio. A bola costuma piorar no fim do dia e melhorar quando você deita.

Dá para só acompanhar?

Dá. Se a bola é pequena e não atrapalha a sua vida, acompanhar basta, e quem diz se atrapalha é você.

Não espere para ser avaliada nestes casos: urinar ou evacuar ficou difícil, a infecção urinária vive voltando, a bola sangra ou já não entra mais.

O que existe além da cirurgia?

Fisioterapia. Ajuda nos sintomas, principalmente em prolapsos menores e quando também há perda de urina. Mas ela não coloca o órgão de volta no lugar, e eu prefiro dizer isso logo.

Pessário. É uma peça de silicone colocada dentro da vagina para segurar o órgão. Pode ser usado em qualquer idade, sai quando você quiser e dá tempo para pensar com calma sobre a cirurgia.

Com o pessário, em dois anos Na prática
Melhoram Cerca de 3 em cada 4 mulheres
Acabam escolhendo operar Pouco mais da metade
Sentem desconforto Cerca de 4 em cada 10

Saber disso antes ajuda a ter a expectativa certa.

Tratar o intestino preso e a tosse, e cuidar da pele da vagina depois da menopausa, ajuda em qualquer caminho.

Como é a cirurgia?

O objetivo é devolver o apoio. A técnica depende de qual parte desceu. Hoje se dá muita atenção a sustentar o topo da vagina, e não só a parede que desceu.

Quando é o útero que desce, nem sempre é preciso tirá-lo. Dá para suspender o útero, o que traz menos problemas para urinar logo depois da cirurgia. Cada caminho tem vantagens e limites, e eu explico os dois antes de decidir com você.

Se você também perde urina, dá para corrigir isso na mesma cirurgia ou depois. Eu explico os dois caminhos.

A tela do prolapso é a mesma do xixi?

Não. A malha larga colocada pela vagina para corrigir o prolapso saiu de uso. A faixa estreita usada para a perda de urina é outro material, com outro objetivo, e continua sendo usada.

Algumas cirurgias de prolapso feitas pela barriga ainda usam tela, com outro tipo de risco. Se disserem que vão colocar uma tela, pergunte qual, por onde e para quê.

Quanto tempo para voltar ao normal?

Depois de uma cirurgia só de prolapso, eu costumo orientar assim: na primeira semana, rotina leve e caminhadas, sem peso. Da segunda à quarta semana, trabalho sem esforço e dirigir. Da quarta à sexta, exercício leve. A partir da sexta, relação sexual, peso e exercício mais forte, conforme a reavaliação.

Antes de operar, eu converso sobre dor, sangramento, infecção urinária, dificuldade passageira para urinar e intestino preso. Também falo da chance de o prolapso voltar: nenhuma técnica zera esse risco.

Perguntas frequentes

Bexiga caída sempre precisa operar? Não. Se não incomoda, dá para acompanhar, e pessário e fisioterapia vêm antes.

Vou precisar tirar o útero? Não necessariamente. Muitas vezes dá para suspender o útero.

Pessário funciona mesmo? Funciona para cerca de 3 em cada 4 mulheres em dois anos.

O prolapso pode voltar depois da cirurgia? Pode, em qualquer técnica. Vale perguntar isso antes.

Posso ter relação com prolapso? Pode. Se houver desconforto ou vergonha, fale na consulta, porque isso pesa na escolha do tratamento.

Quer o detalhe? O mesmo assunto com os estudos, os números e as fontes.
Versão completa

Para quem quer o detalhe técnico, com as referências numeradas no fim.

A queixa costuma chegar assim: “sinto uma bola na entrada da vagina, principalmente no fim do dia”. Na maior parte das vezes, essa bola é um prolapso dos órgãos pélvicos, popularmente chamado de bexiga caída ou útero caído. Antes de qualquer outra coisa, eu faço questão de dizer duas frases: prolapso não é câncer e não é emergência. E nem todo prolapso precisa de cirurgia.

O que exatamente desceu?

Pense no assoalho pélvico como uma rede de músculos e ligamentos que segura, por baixo, bexiga, útero e reto. Se essa rede afrouxa, o órgão perde o apoio, desce e faz volume numa das paredes da vagina. É esse abaulamento que a mão encontra.

Cada situação tem um nome:

  • Cistocele: a bexiga desce pela parede da frente. É a “bexiga caída”.
  • Retocele: o reto empurra a parede de trás.
  • Prolapso uterino: o próprio útero desce.
  • Prolapso de cúpula: em quem já retirou o útero, é o fundo da vagina que desce.

É comum haver mais de um compartimento envolvido ao mesmo tempo, e isso muda o plano.

Por que isso acontece?

Entre os fatores que enfraquecem o suporte estão os partos vaginais, a queda de estrogênio após a menopausa, a tosse crônica, a constipação com esforço repetido, o excesso de peso e o trabalho com carga. O sintoma típico é a sensação de peso, ou de algo saindo, que aumenta conforme o dia passa e diminui quando a mulher se deita. Muitas percebem a bola pela primeira vez no banho, ao se enxugar, e passam meses sem saber a quem perguntar.

Preciso tratar, ou dá para só acompanhar?

Quando o prolapso é pequeno e não atrapalha, acompanhar é uma opção válida. O que define a necessidade de tratar é o incômodo que ele causa a você, e não a régua do exame.

Há situações, porém, em que eu peço avaliação sem demora: quando urinar ou evacuar fica difícil, quando a infecção urinária se repete, quando o tecido que ficou para fora sangra ou quando a bola deixa de voltar para dentro.

No exame, peço que você faça força deitada e também em pé, para ver até onde o órgão desce e classificar o grau. Aproveito para verificar se há perda de urina junto e como estão os músculos da pelve. Muitas vezes, nenhum exame de imagem é necessário.

O que existe antes da cirurgia?

A diretriz britânica NICE NG123, de 2019, que trata de incontinência urinária e prolapso, inclui a fisioterapia supervisionada do assoalho pélvico e o pessário entre as opções de manejo sem cirurgia. São esses os dois pilares que eu apresento.

Fisioterapia do assoalho pélvico. Melhora os sintomas, principalmente nos prolapsos de menor grau e quando há perda de urina associada. Mas não devolve o órgão ao lugar, e o Protocolo FEBRASGO de 2025 sobre prolapso deixa isso claro. Prefiro dizer isso antes do que frustrar a expectativa depois.

Pessário. Trata-se de uma peça de silicone que fica dentro da vagina e segura o órgão no lugar. Pode ser usado em qualquer fase da vida, sai quando você quiser e permite ganhar tempo enquanto pensa na cirurgia. No Brasil, ainda é pouco oferecido, e nada no próprio método explica essa baixa oferta.

A principal comparação disponível sobre o pessário vem do ensaio PEOPLE (van der Vaart e colaboradores, JAMA, 2022), que acompanhou 440 mulheres na Holanda, comparando começar pelo pessário ou pela cirurgia. Depois de 24 meses, a sensação de melhora foi relatada por 76,3% no grupo que iniciou com pessário e por 81,5% no grupo operado; com essa diferença, o pessário não cumpriu a margem estatística de não inferioridade definida pelo estudo. Na conversa, o dado que mais pesa é outro: 54,1% de quem começou com o pessário migrou para a cirurgia ao longo desses dois anos. O incômodo mais citado com o dispositivo foi desconforto, em 42,7%.

Na prática: o pessário ajuda muitas mulheres e é uma porta de entrada válida, só que perto de metade delas acaba operando em dois anos. Conhecer esse número desde o primeiro dia evita frustração.

Medidas que somam a qualquer escolha: tratar a constipação e a tosse crônica e cuidar do tecido vaginal na pós-menopausa.

Quando opero, como escolho a técnica?

O objetivo da cirurgia é devolver sustentação. A técnica depende da parede que desceu e de o topo da vagina estar ou não sem apoio.

Situação Abordagem mais comum
Bexiga descendo pela parede anterior Correção da parede da frente, conferindo também o apoio do ápice
Reto empurrando a parede posterior Correção da parede de trás
Descida do útero Histeropexia, que fixa o útero no lugar, ou histerectomia associada à fixação do ápice
Cúpula vaginal descida, em quem já tirou o útero Fixação do ápice pela vagina ou pelo abdome
Prolapso acompanhado de perda de urina Definir se o tratamento da perda é feito junto ou em outro momento

Dois pontos mudaram nos últimos anos.

A sustentação do topo ganhou peso. O cuidado com o ápice da vagina passou a ocupar lugar central no reparo, a ponto de a FEBRASGO publicar em 2026 um posicionamento dedicado ao tratamento cirúrgico do prolapso apical (Posicionamento nº 9/2026, Sartori e colaboradores). O ensaio de Menefee e colaboradores (JAMA Surgery, 2024) comparou técnicas de suspensão entre si no prolapso de cúpula, e não reparo com e sem suspensão; o apoio a essa mudança vem de dados observacionais. Por isso trato a suspensão do topo como tendência, e não como regra, avaliada caso a caso.

Preservar o útero é uma escolha com contrapartidas. Na comparação de longo prazo entre histeropexia e histerectomia publicada por Akavian e colaboradores em 2026, a preservação do útero se associou a menos retenção urinária e menos infecção urinária no pós-operatório imediato. Os dois caminhos têm vantagens e limitações, e eu coloco ambos na mesa antes de decidir com você.

A tela do prolapso é a mesma do sling?

Não, e misturar os dois leva a decisões erradas. Os kits de tela colocados pela vagina para corrigir prolapso, uma malha larga ancorada em vários pontos, foram abandonados. O sling médio-uretral é outra coisa: uma fita fina, usada para a perda de urina aos esforços, que segue como tratamento cirúrgico de referência para esse problema no Brasil e na Europa continental, posição reafirmada pela associação europeia de uroginecologia em 2025 (Ruffolo e colaboradores) e pela diretriz AUA/SUFU de 2023 (Kobashi e colaboradores).

Também não é verdade que toda cirurgia de prolapso dispense material. A sacrocolpopexia, feita por via abdominal ou laparoscópica, usa tela, com outra via, outra finalidade e outro perfil de risco. Se alguém disser apenas “vamos colocar uma tela”, vale perguntar qual, por onde e para quê.

E quando há perda de urina junto com o prolapso? A revisão Cochrane de 2026 (Baessler e colaboradores) concluiu que incluir o sling na mesma cirurgia do reparo vaginal diminui a perda de urina depois, e que adiar o sling para outra operação chega a resultados semelhantes, embora algumas mulheres acabem não fazendo essa segunda etapa. Somar ou não é uma decisão que eu tomo com você, com os riscos de cada caminho explicados.

Como é a recuperação?

Os prazos abaixo são a orientação que eu costumo dar para o reparo de prolapso sem outra cirurgia associada. Eles se ajustam à via usada, à sua idade, ao tipo de trabalho e a eventuais procedimentos associados.

Período O que costumo liberar
Primeiros 7 dias Tarefas leves em casa e caminhadas; nada de carregar peso
Semanas 2 a 4 Volta ao trabalho que não exige esforço; pode dirigir
Semanas 4 a 6 Exercício leve, aumentando aos poucos
Depois da 6ª semana Relação sexual, carga e impacto, após reavaliação

Antes de operar, eu falo abertamente sobre dor, sangramento, infecção urinária, dificuldade passageira para urinar, intestino preso nos primeiros dias e a chance de o prolapso retornar. A recidiva existe em qualquer técnica. Não há uma taxa de sucesso única, porque ela muda conforme a técnica, o compartimento operado e o tempo de acompanhamento.

Perguntas frequentes

Bexiga caída sempre precisa de cirurgia? Não. Se não incomoda, dá para só acompanhar; e, antes de operar, há o pessário e a fisioterapia.

Para tratar o útero caído, preciso tirar o útero? Não obrigatoriamente. A histeropexia fixa o útero no lugar sem retirá-lo, e eu avalio essa opção em cada caso.

Pessário é só para quem não pode operar? Não. Ele é um tratamento completo, válido em qualquer idade. No PEOPLE, 76,3% relataram melhora em 24 meses, e 54,1% preferiram operar nesse mesmo intervalo.

O prolapso pode voltar depois da cirurgia? Pode, qualquer que seja a técnica. Vale perguntar sobre isso antes da cirurgia.

Essa bola pode virar câncer? Não. Merecem avaliação, porém, sangramento na parte exposta ou uma ferida que não fecha.

Posso ter relação sexual com prolapso? Pode. Desconforto e constrangimento são comuns, e vale contar isso na consulta, porque esses incômodos pesam na hora de decidir se e como tratar.

Se você sente essa bola e quer entender quais opções fazem sentido para você, me chame no WhatsApp (11) 93371-4477.

Referências

  1. Sartori MGF, et al. Tratamento cirúrgico do prolapso apical. Posicionamento FEBRASGO nº 9/2026. Femina. 2026;54(6):1-10. DOI 10.61622/0100-7254546202602
  2. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Prolapso dos órgãos pélvicos. Protocolo. Femina. 2025;53(7):920-927. DOI 10.61622/0100-7254537202507
  3. van der Vaart LR, Vollebregt A, Milani AL, et al. Effect of Pessary vs Surgery on Patient-Reported Improvement in Patients With Symptomatic Pelvic Organ Prolapse: A Randomized Clinical Trial. JAMA. 2022;328(23):2312-2323. DOI 10.1001/jama.2022.22385
  4. Baessler K, et al. Surgery for women with pelvic organ prolapse with or without stress urinary incontinence. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2026. DOI 10.1002/14651858.CD013108.pub2
  5. Menefee SA, et al. Apical Suspension Repair for Vaginal Vault Prolapse: A Randomized Clinical Trial. JAMA Surgery. 2024. PMID 38776067
  6. Akavian I, et al. Long-Term Outcomes After Native Tissue Hysteropexy Compared With Hysterectomy for Treatment of Pelvic Organ Prolapse. Obstetrics & Gynecology. 2026. PMID 42424621
  7. Ruffolo AF, et al. European Urogynaecological Association Position Statement: Implantable Devices for Female Stress Incontinence Surgery. Eur J Obstet Gynecol Reprod Biol. 2025;309:175-185. DOI 10.1016/j.ejogrb.2025.03.049
  8. Kobashi KC, et al. Updates to Surgical Treatment of Female Stress Urinary Incontinence (SUI): AUA/SUFU Guideline (2023). J Urol. 2023;209(6):1091-1098. DOI 10.1097/JU.0000000000003435
  9. National Institute for Health and Care Excellence. Urinary incontinence and pelvic organ prolapse in women: management. NICE Guideline NG123. 2019.
Dr. José Ricardo W. Ristow, ginecologista

Dr. José Ricardo W. Ristow

CRM-SP 206.100 · MÉDICO · Ginecologista e Obstetra · RQE 114.593 · Responsável técnico

Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pelo Hospital Pérola Byington.

Revisado por Dr. José Ricardo W. Ristow em 22 de outubro de 2026. Conteúdo informativo, que não substitui a consulta médica.

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